09 de julho de 2026
Nacional

Religiosidade dos brasileiros está em alta, aponta a FGV

Por Da Redação | Com Folhapress
| Tempo de leitura: 4 min

Rio de Janeiro - A religiosidade do brasileiro está em alta. Pela primeira vez, em mais de um século, a proporção de católicos parou de cair e se manteve estável entre os anos de 2000 e 2003, atingindo quase 74% da população brasileira.

O número de evangélicos continua crescendo (passou de 16,2% para 17,9%) e o das pessoas que não têm qualquer religião sofreu queda de 7,4% para 5,1%. Os dados constam de pesquisa divulgada ontem pelo Centro de Políticas Sociais da Fundação Getúlio Vargas (CPS/FGV), no Rio de Janeiro.

Para o pesquisador Marcelo Nery, responsável pelo estudo, a chamada "reação católica" pode estar relacionada à melhoria na distribuição de renda entre as camadas mais pobres da população (classe E), que ao lado da elite econômica (classe A) é a mais representativa da religião católica. Segundo Nery, a transferência de renda proporcionada por programas de assistência, como o Bolsa Família, contribuiu para que os mais pobres deixassem de abandonar o catolicismo. "Quando as condições econômicas são favoráveis, as pessoas deixam de procurar novas religiões", explicou Nery.

O estudo também revela que com a crise metropolitana nas últimas décadas, o inchaço das grandes cidades, o aumento da violência e a piora do acesso aos serviços públicos, as igrejas evangélicas pentecostais (Assembléia de Deus, Universal do Reino de Deus etc.) e os sem religião tiveram um crescimento mais expressivo nas periferias.

Nery acredita que com o surgimento dessa "nova pobreza", as pessoas seguem em geral dois caminhos. "Ou se apegam a religiões de práticas mais intensas, como as pentecostais, ou perdem a esperança e viram sem religião", disse. Segundo o pesquisador, o crescimento das igrejas pentecostais nessas áreas (metrópolis) também pode ser entendido como uma forma de ocupar uma lacuna deixada pelo Estado, com desemprego, favelização, precariedade de acesso aos serviços públicos.

Ainda conforme aponta a pesquisa da FGV, as mulheres são mais religiosas do que os homens. De um total de 50 religiões observadas, a predominância feminina foi verificada em 43 delas. Elas são, no entanto, menos católicas do que os homens. Marcelo Nery explicou que com a revolução feminina e a entrada no mercado de trabalho, as mulheres passaram a ter novas necessidades que não foram correspondidas pela Igreja Católica, como o uso de métodos contraceptivos e a possibilidade do divórcio.

Dízimo

O brasileiro doou aproximadamente R$ 280 milhões em dízimos a instituições religiosas em 2003. Representando 17,9% da população, os evangélicos são a fonte de 66,5% dos recursos provenientes de dízimos a todas as igrejas, diz o levantamento da CPS/FGV.

Os católicos, 73,8% dos brasileiros, contribuem com 31,1% deste tipo de doação. Do total da população, apenas 0,65% pagaram dízimo. Os dados mostram ainda que, apesar de ficar atrás dos evangélicos em valores doados a partir de dízimos, os católicos representam 57,7% das pessoas que têm despesas com este tipo de doação.

Os evangélicos são 40,9%. Ou seja, apesar de menos evangélicos doarem, o valor médio dado por eles é maior. O levantamento foi feito a partir dos dados das Pesquisa de Orçamento Familiar de 2003, elaborado pelo Instituo Brasileiro de Geografia e Estatísticas (IBGE). O dízimo é conceituado como doação mensal periódica a instituições religiosas e não inclui doações esporádicas.

“O dízimo tem também a intenção de contribuir para espalhar a palavra de Deus. É um investimento na obra de Cristo”, explicou a pesquisadora do Instituto de Estudos da Religião (Iser) Christina Vital. Entre os evangélicos, só os pentecostais são a fonte de 43,8% de todo o dízimo pago a instituições religiosas. Eles eram 26,6% deste tipo de doadores do País em 2003. Já os não-pentecostais deram 22,6% do total arrecadado pelas instituições religiosas a partir do dízimo, sendo 14,3% deste tipo de contribuintes naquele ano.

Os evangélicos pentecostais acreditam em milagres operados diretamente pelo Espírito Santo. Os não-pentecostais freqüentam igrejas protestantes resultantes de cismas católicos.

Segundo a pesquisa, os que mais doam mensalmente são os evangélicos pentecostais, com R$ 33,87, seguidos dos fiéis de religiões orientais (R$ 33,33) e dos evangélicos não-pentecostais (R$ 32,51). Os católicos doam, por mês, R$ 10,89. Apenas os que seguem as religiões afro-descendentes declaram não pagar dízimos. Curiosamente, a pesquisa aponta que cerca de 8 mil pessoas que declaram não ter religião afirmaram ter pago mensalmente, em média, R$ 27,87 de dízimo.

“Os sem religião são, na verdade, um grupo em trânsito. Eles muitas vezes não se identificam com nenhuma crença, mas doam em cultos que acabam freqüentando”, explicou Vital.