Logística privilegiada, terras ociosas em abundância e muitos pecuaristas insatisfeitos com prejuízos constantes. Estes são os principais elementos de composição da fórmula que tem atraído cada vez mais investimentos na plantação de eucaliptos na região de Bauru. O crescente interesse do setor industrial pela madeira tem resultado, inclusive, na intensa valorização do preço da terra: mais de 30% nos últimos dois anos.
De acordo com Maurício Lima Verde, presidente do Sindicato Rural de Bauru e vice-presidente da Federação da Agricultura do Estado de São Paulo (Faesp), a “invasão” da cana-de-açúcar no Estado de São Paulo foi a mola propulsora do aumento de preços da terra. Porém, seria uma “valorização artificial” gerada pela especulação de usineiros.
No caso das áreas que estão sendo ocupadas por plantações de eucalipto, a avaliação de Lima Verde é de que a valorização continuará. Levantamento feito pelo Instituto de Economia Agrícola (IEA) mostra que, em 2004, o preço médio do hectare (ha) da terra para pastagem na região de Bauru era de R$ 4.560,21. No ano passado a média era de R$ 5.976,98, ou seja, 31% a mais. Em 2002, por exemplo, o preço médio era de R$ 2.123,97.
No caso das áreas chamadas de “campo” no levantamento do IEA, a valorização entre 2004 e 2006 foi de 46%, passando de R$ 3.264,46 para R$ 4.793,39 o hectare. Cada hectare equivale a 10.000 metros quadrados (m²).
Segundo Lima Verde, as terras mais valiosas no Estado são aquelas distantes no máximo 40 quilômetros das usinas de processamento de cana. Essa é a distância máxima que o fornecedor deve ficar do comprador para que o negócio seja rentável.
“Em alguns lugares, como Novo Horizonte, já se fala em R$ 50 mil o alqueire da terra utilizada para plantação de cana. Ou seja, houve uma especulação muito grande e mesmo as pessoas desse meio acham que é uma valorização artificial, não deve se manter por muito tempo. De dois anos para cá, o que a cana tem feito em termos de valorização em diversas regiões do Estado, o eucalipto tem feito na região de Bauru”, diz o vice-presidente da Faesp.
Distância
De acordo com ele, as empresas interessadas na madeira procuram áreas para plantação num raio de até 150 quilômetros - distância que se mantém viável economicamente. Atualmente, arrendar uma área para a plantação de eucalipto gera receita anual de R$ 1.200,00 por alqueire. No Estado de São Paulo, cada alqueire equivale a 24.200 m².
“O prejuízo que a nossa região eventualmente poderia sofrer por não ter a cana, está sendo superado por esses altos investimentos em madeira. E tudo isso está ocorrendo de forma natural, devido à logística privilegiada da região e à abundância de terras (propícias para a plantação de eucalipto), sem a interferência do governo municipal”, alfineta Lima Verde.
Mesmo com a valorização acentuada da terra, o crescimento das áreas que estão sendo tomadas por plantações de eucalipto é rápido, pois as empresas interessadas na matéria-prima pertencem a grandes e poderosos grupos. “O dinheiro (valor das terras) não é empecilho para essas empresas. Então, acredito que essa curva continuará ascendente”, avalia.
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Nova atividade
Um pecuarista de Bauru, que pediu para ter o nome preservado, está entre os que vislumbraram a oportunidade oferecida pelo aumento da demanda por eucalipto. Nos últimos 12 meses, ele reduziu em 60% a quantidade de gado que tinha em sua propriedade e fez parceria com uma indústria para fornecer madeira. No momento, existem cerca de 150 pessoas trabalhando nos cerca de 300 alqueires destinados à nova atividade.
“A pecuária ficou estagnada. Não havia mais valorização da carne, da arroba do boi, de nada. Às vezes ocorriam alguns picos de valorização, mas não eram suficientes (para suprir os maus momentos). Por outro lado, os preços dos insumos subiram e os gastos com folha de pagamento também. Então, chega um momento em que você não suporta mais arcar com tudo isso”, diz o empresário.
Segundo ele, mesmo demorando de cinco a seis anos para fazer o primeiro corte na plantação de eucalipto, o trabalho com essa cultura estanca os prejuízos que ele vinha acumulando com a pecuária.
“O eucalipto é uma cultura que exige investimentos no primeiro ano para preparar a terra, fazer as chamadas ‘ruas’ e ‘quarteirões’ entre a plantação para os caminhões poderem entrar e na aquisição de produtos para combater as formigas, que são seus principais inimigos. Mas depois, a evolução ocorre naturalmente”, comemora.