08 de julho de 2026
Articulistas

Governo flex

Arnaldo Madeira
| Tempo de leitura: 3 min

Não é apenas o carro flex que está em alta. A se julgar pelas últimas pesquisas de opinião, o governo Lula também está, muito embora não se possa prever até quando. Não há mal que sempre dure. Entre um e outro – o automóvel e o governo –, há uma semelhança: ambos são movidos por dois combustíveis distintos. O primeiro, ora pelo álcool, ora pela gasolina, de acordo com o gosto ou bolso do proprietário. O segundo – como já perceberam os observadores mais atentos – se move pela jactância dos tolos (nunca neste país...) e pela lei da inércia. Como sabem, fazer bravatas é uma coisa. Tomar decisões é algo bem distinto.

Deixemos de lado as questões relativas ao nunca neste país e vamos ao que nos interessa. O pregão e o governo eletrônicos foram instituídos no Brasil por duas Medidas Provisórias, nos anos de 2000 e 2001. De lá para cá, governos estaduais e municipais passaram a adotar estes dois mecanismos. Por meio deles, administrações públicas passaram a fazer economias significativas e a dar maior transparência ao sistema de compras. No Estado de São Paulo, não foi diferente. Ainda na gestão Mário Covas, foram adotados princípios e normas do governo eletrônico. Sua implantação foi gradativa. A partir de janeiro de 2004, todas as compras do governo do Estado passaram a ser feitas por bolsa eletrônica, pregão eletrônico ou pregão presencial. E até hoje elas são feitas por um daqueles três sistemas. Resultado: em três anos, do início de 2003 ao início de 2006, foram economizados mais de R$ 3 bilhões. De cada cem ambulâncias adquiridas pela administração pública, 24 passaram a ter custo zero. Até um carro flex sabe que concorrência e transparência são o melhor remédio para baixar a febre renitente dos preços altos.

E o que fez o governo de Lula no seu primeiro mandato? Nada. Nada além de paralisar um processo que, iniciado na gestão Fernando Henrique, já estava em curso. É impossível dizer com exatidão o quanto de recursos saiu dos cofres da União sem necessidade, por conta da mistura de omissão e inércia da administração federal. Mas é fácil imaginar o tamanho do desperdício.

Embalada pelos sucessivos escândalos que marcaram o primeiro mandato de Lula, a lei da inércia acabou constrangendo o governo a agir. Não era sem tempo. No início de maio, foi aprovado pela Câmara dos Deputados um projeto que, se não é tão moderno quanto poderia ser, representa um avanço ante o que aí estava. Infelizmente, este não é um caso isolado. Há muitos outros que justificam a certeza de que a atual administração deixa o que importa como está, para ver como é que fica. É um governo que, qualquer que seja o combustível, só pega no tranco, quando pega.

Quanto de recursos, por exemplo, o país está deixando de obter junto à iniciativa privada para investimento em infra-estrutura, por conta do preconceito ideológico do governo e de sua base aliada? (O autor, Arnaldo Madeira, é vice-líder do PSDB na Câmara Federal - e-mail: dep.arnaldomadeira@camara.gov.br)