09 de julho de 2026
Polícia

Mecânico morreu com um tiro na parte de trás da cabeça, afirma IML

Luiz Galano
| Tempo de leitura: 4 min

O mecânico Jorge Luiz Lourenço, 22 anos, foi morto com apenas um tiro na parte de trás da cabeça e estava usando o capacete na posição correta quando policiais militares o alvejaram, no início do mês passado. A conclusão dos legistas Ivan Segura e Alberto Briani, do Instituto Médico Legal (IML) de Bauru, é contrária ao resultado do primeiro laudo, que apontava a entrada da bala na região frontal da cabeça.

Com isso, as hipóteses de que Jorginho (como era chamado pelos amigos) estaria sem capacete ou o estava utilizando com a viseira voltada para trás são excluídas do inquérito. A conclusão dos legistas também indica que o tiro que perfurou o capacete não foi feito após a morte do rapaz e fora de sua cabeça. No entanto, é reforçada a idéia de que ele possa ter sido atingido por trás.

“Foi um disparo só, retilíneo, que transfixou a parede do capacete, o isopor, penetrou na região posterior da cabeça, transfixou o cérebro, saiu na região frontal direita e parou ao bater na outra face do capacete”, explica Segura, que provou as afirmações vestindo o item de segurança no crânio de Jorginho e introduzindo uma vareta de ferro, que transpassou os três furos de forma retilínea.

Segundo Briani, autor do primeiro laudo necroscópico que indicava trajetória contrária do tiro, a condição do ferimento e a falta de informação resultaram no equívoco. “O projétil atingiu o capacete, se deformou e provocou dois ferimentos grandes e muito parecidos. Uma bala comum teria feito um pequeno furo na entrada e um ferimento maior na saída. Haviam hematomas e muita massa encefálica que também prejudicaram o local de análise. Mas o principal seria a falta da informação sobre o capacete”, afirma. “Com certeza ele estava usando o objeto de forma correta e foi um único projétil”, completa.

A hipótese de agressão antes da morte foi descartada por completo após análise do crânio. “Ele chegou ao hospital com vida, acredito que a morte tenha ocorrido umas cinco ou seis horas após o disparo, porque não atingiu o bulbo (parte do cérebro). Se você leva uma pancada, a tábua óssea, estando viva, teria absorvido sangue, deixando marcas no crânio, que poderiam ser notadas ainda hoje”, revela Segura.

Os legistas não emitem opinião quanto à posição de Jorginho no momento em que foi atingido. “Isso é relativo. Ele podia estar em pé, agachado, de costas ou ter virado a cabeça. Isso só pode ser discutido após a reconstituição da polícia técnica”, afirma Briani.

De acordo com o capitão Marcelo Martins, que preside o inquérito militar, só será possível emitir algum parecer sobre os fatos quando forem divulgados os estudos detalhados da situação, feitos pelo Instituto de Criminalística (IC). “A providência já foi tomada. Assim que o resultado oficial nos for entregue, será anexado no inquérito e aguardaremos os resultados dos trabalhos do IC, para depois relatarmos o caso e tomar as medidas cabíveis”, afirma.

Policiais afastados

Os três policiais envolvidos no caso, Ricardo Antonio do Amaral, Renato Valderramas de Favari e Lincoln Cesar Cares, estão afastados do trabalho nas ruas e atuam na área administrativa atualmente. Eles poderão ser expulsos da corporação caso seja comprovado que eles não teriam motivo para atirar no rapaz ou o tenham executado (hipótese defendida pela família).

Segundo o delegado do 2º Distrito Policial (DP), Marcos Cremonesi, que investiga o caso, não existe data definida para a divulgação dos laudos do IC, que indicariam detalhes do fato, como distância do disparo e o espaço percorrido pela bala.

No entanto, ele considera importante a revelação da trajetória correta do projétil. “Os contornos da investigação mudam porque trabalhávamos com a idéia de que ele teria sido atingido na parte frontal da cabeça. Isso é importante, porque se fala em execução ou perseguição”, afirma, sem divulgar mais detalhes para não prejudicar o processo de investigação.

Crânio volta ao cemitério

Segundo o diretor do IML, Ivan Segura, o crânio de Jorginho voltará ao caixão com o restante do seu corpo somente daqui 30 dias. “Preferimos mantê-lo aqui durante esse período para evitar uma nova exumação, caso surja algum tipo de problema”, explica.

Há 21 anos trabalhando no IML da cidade, Segura afirma ter sido a primeira vez que o instituto se equivocou num laudo. “Mesmo atuando de forma independente em relação à polícia científica, nossas conclusões sempre bateram”, afirma. (LG)

História

Segundo os policiais envolvidos, antes de ser atingido, Jorge pilotava uma Falcon vermelha com a placa virada. Por esse motivo, uma patrulha pediu que ele parasse no entroncamento da rua Araújo Leite e avenida Nuno de Assis. Ele não teria atendido à indicação e tentou fugir em alta velocidade. Foi perseguido, trocou tiros com a patrulha e baleado na cabeça num matagal ao lado da avenida Rosa Malandrino Mondelli. Segundo a família, trata-se de uma pessoa honesta que teria sido executada. (LG)