Depois de 20 anos de “correria”, prestando serviços de segurança à população bauruense, o cavalo Boêmio, da Polícia Militar (PM), irá se aposentar. Até aí, tudo bem. No entanto, além de ser o único animal da corporação com a rara habilidade de dormir em pé, ele é o primeiro eqüino da corporação a “ganhar” o direito de curtir a velhice em paz, e permanecer sob os cuidados do parceiro diário de serviço.
O soldado Luciano Milano Palma, tem Boêmio como companheiro de trabalho há 6 anos, desde quando ingressou na corporação. Nesse período, entre tombos conjuntos, o condutor aprendeu a conviver com as peculiaridades do animal, cujo nome lhe cai como uma luva. “Eu nunca vi o Boêmio se deitar. Ele dorme sempre em pé, inclusive durante o dia. Às vezes, tenho que dar chacoalhada para ele acordar”, revela Palma.
De acordo com o policial, o animal chega até mesmo a cair no chão, quando entra em sono profundo. “Um dia estava montado e ele chegou a sentar enquanto dormia. Nenhum veterinário nosso conseguiu explicar esse costume dele”, afirma o cavaleiro do animal da raça Brasileiro de Hipismo.
Apesar da sonolência incomum, Palma é só elogios para o parceiro, que chegou até mesmo a ser premiado com o segundo lugar numa competição de saltos no Chile. “Não sei como vai ser com o novo animal. Ao que tudo indica será uma égua, mas só o tempo poderá dizer se ela será tão boa quanto o Boêmio”, diz.
De acordo com o sargento Carlos Almir Boaventura, comandante do 2.º Grupo de Cavalaria de Bauru, Boêmio é o primeiro cavalo da corporação a ser doado ao parceiro, nos 30 anos de atuação do destacamento em Bauru. “Essa prática começou há cerca de seis meses, em São Paulo. Antes, eles permaneciam numa fazenda da polícia até a morte”, revela.
Voltando um pouco mais ao passado, o ex-comandante da cavalaria na cidade, Antônio Rizanti, relembra que há 20 anos, os animais eram doados ao Instituto Butantã, para servirem de hospedeiros na produção de soros. “Eu já fui até lá. Depois de anos de serviço, aquilo era muito sofrido para eles”, revela.
A cavalaria é utilizada para policiamento ostensivo, em locais de difícil acesso para viaturas. Geralmente, participam da segurança em eventos esportivos (estádios de futebol), shows e ações de choque, quando necessário.
Boêmio, que nasceu em 1982, poderá viver ainda mais dez anos. Sua aposentadoria será longe da movimentação da cidade. A partir de hoje, ele vive numa chácara que pertence ao seu dono, na divisa de Bauru e Duartina. Lá, ele irá curtir o ar puro e o sossego em meio ao verde, junto com outro companheiro que já está no local há algum tempo.