08 de julho de 2026
Cultura

Arte sem estigma

Adriana Fricelli
| Tempo de leitura: 2 min

Enquanto acadêmicos e profissionais da saúde discorrem em mesas-redondas, em Bauru, sobre os 20 anos da Luta Antimanicomial, os objetos da discussão mostram na prática os benefícios de um tratamento humanizado, feito no convívio social e por meio de uma ferramenta transformadora: a arte.

No palco do Teatro Municipal, um elenco de autistas, depressivos e esquizofrênicos apresenta gratuitamente nesta noite, às 20h, a peça “Dom Quixote” (leia mais abaixo). Ao lado, na Galeria Angelina W. Messenberg, o artista plástico Carlos Roberto Fernandes, o Carluz, expõe seu toque criativo – “pode ter quem chame de transtorno obsessivo compulsivo”, diz o artista – na exposição “Bibeloucos”, aberta hoje às 20h.

Ao entrar na galeria, nem é preciso esforço para compreender o nome da exposição. São objetos que acompanham Carluz há anos, artisticamente misturados e transformados em outro contexto. Assim, uma garrafa de vidro repleta de haicais (de autoria própria e de amigos) se equilibra entre pregos martelados sobre uma caixa esculpida.

Num outro canto, um alter para musculação está amparado por uma pedra. “Por mais que vente e invente, a gente só vai aonde pisa”, diz Carluz em referência à obra. Mas antes de responder a qualquer pergunta, o artista pega um papel amarrotado e lê o poema “Guardar”, de Antônio Cícero, carregando a voz nos trechos:

“Guardar uma coisa não é escondê-la ou trancá-la (...) Guardar uma coisa é olhá-la, fitá-la, mirá-la por admirá-la, isto é, iluminá-la ou ser por ela iluminado”, cita.

Trata-se de um fascínio em colocar em movimento objetos guardados em caixinhas, gavetas e prateleiras. “Eu os coloco para conviver; amanhã vão estar de outro jeito. Quem indica é o tempo”, explica. E assim, ele vai construindo e desconstruindo, até esgotar todas as possibilidades. “Nesta hora, eu os jogo no lixo”, afirma Carluz.

Entre os seis “bibeloucos”, 20 telas sintetizam o trabalho de 20 anos em Bauru, interrompido algumas vezes por problemas emocionais. Hoje, aos 55 anos, Carluz foge da terapia, atividade que o acompanhava desde os 8 anos. “Muitos artistas não gostam de fazer terapia porque seca a fonte”, explica. Atualmente, o trabalho de cura de Carluz é apenas a arte. Mais obras do artista podem ser vistas em seu ateliê, na rua Floriano Peixoto, 9-86. Mais informações: (14) 3234-3407.

Serviço

Exposição “Bibeloucos”, de Carluz, será aberta hoje, às 20h, na galeria do Centro Cultural (avenida Nações Unidas, 8-9). A visitação é gratuita e pode ser feita até o dia 31 de maio. Mais informações:

(14) 3235-1072.