09 de julho de 2026
Articulistas

Boa entrevista

Antonio Delfim Netto
| Tempo de leitura: 3 min

Na entrevista coletiva que concedeu esta semana, o presidente Lula foi suficientemente claro nas respostas que deu para três questões da maior importância. Defendeu a prioridade aos investimentos na hidroeletricidade e explicou didaticamente porque o atraso nos licenciamentos das usinas do rio Madeira vai custar muito caro ao País. Reconheceu os prejuízos que a supervalorização cambial está impondo a setores dinâmicos de nossa economia, mas fez duas ressalvas muito sensatas, garantindo que o câmbio vai continuar flutuante e que por maior que seja a tentação não vai interferir na autonomia do Banco Central. E usou de absoluta transparência ao condenar o grevismo, advertindo os servidores públicos que vai mandar cortar o ponto dos ausentes: “nenhum brasileiro pode aceitar alguém fazer 90 dias de greve e receber os dias parados, porque aí deixa de ser greve e passa a ser férias”.

Em mais um momento da entrevista, o presidente Lula foi particularmente feliz ao dizer que considera uma provocação à democracia brasileira qualquer proposta de um terceiro mandato e ainda defendeu enfaticamente uma reforma política para acabar com o instituto da reeleição à cada quatro anos, propondo sua substituição por um mandato de cinco anos. Do meu ponto de vista, o sistema de reeleição sem desincompatibilização foi a pior mazela criada pela ambição tucana de poder, pois contaminou as instituições democráticas em todos os níveis e em todo o País com o vírus do continuísmo, multiplicando as antigas bactérias do nepotismo, do empreguismo e da corrupção eleitoral.

É também uma questão de justiça registrar a boa organização da entrevista e a liberdade que os jornalistas tiveram para complementar o questionamento sem problemas, sugerindo que este é um encontro a ser repetido a intervalos menores que os dois meses prometidos. O resultado foi muito bom e não apenas para aqueles que torcem pelo sucesso do governo e do seu programa de desenvolvimento, mas substancialmente porque ajuda a oxigenar as engrenagens do sistema democrático. Mais ainda, a transmissão direta pelo rádio e pela TV favorece o entendimento da opinião popular sobre o desempenho de uma parte de nossa mídia que mal consegue esconder o preconceito que nutre em relação ao ex-retirante nordestino que se formou torneiro mecânico e se tornou presidente da República.

Faço o registro dessa pobre realidade porque na manhã da última terça-feira, antes portanto da coletiva, tive a oportunidade de ouvir comentários desprimorosos na mídia sobre o que o presidente iria dizer na entrevista, do tipo “as perguntas foram combinadas” e “não haverá nenhuma novidade nas respostas”... Quer dizer: não ouçam, não vejam e não leiam porque não vão perder nada... Não há o que estranhar: as instituições democráticas estão aí para garantir a defesa do contraditório, dos interesses políticos ou econômicos contrariados. A pobreza e a velhacaria estão no uso do direito democrático de fazer oposição para disseminar o preconceito, atitude tipicamente antirepublicana, lastreada no mais ultrapassado viés aristocrático... (O autor, Antonio Delfim Netto, é professor emérito da FEA-USP, ex-deputado e ex-ministro da Fazenda, Agricultura e Planejamento)