09 de julho de 2026
Bairros

Bauru tem 350 quilômetros de ruas de terra

Rodrigo Ferrari
| Tempo de leitura: 4 min

Os moradores da periferia de Bauru são obrigados a conviver com dificuldades de toda natureza no dia-a-dia, mas nesse universo de carências existe algo que está sobrando: as ruas de terra. A Secretaria Municipal de Obras estima hoje que existam aproximadamente 3.500 quarteirões não pavimentados nos bairros afastados da cidade.

Como em Bauru as quadras têm extensão média de 100 metros, seria possível dizer que o município conta com cerca de 350 mil metros - ou 350 quilômetros - de ruas de terra. Dispostos numa linha reta, esses trechos sem asfalto totalizariam uma distância ligeiramente superior à que separa Bauru da Capital (343 quilômetros, pelas rodovias Marechal Rondon e Castelo Branco).

É uma extensão considerável. Para fazer frente a ela seria preciso somar todas as ruas de terra de Ribeirão Preto, Araraquara, Franca e São Carlos. Nesse caso a “Cidade Sem Limites” perderia por pouco: juntos, os quatro municípios paulistas possuem 355,35 quilômetros de vias não pavimentadas, de acordo com reportagem recente publicada pelo jornal “Folha de S. Paulo”.

Em Bauru as ruas de terra são encontradas com maior facilidade nos bairros periféricos. Alguns, como os parques Jaraguá e Santa Edwirges, na zona noroeste, até possuem trechos asfaltados; outros, como o Tangarás e o Jardim Manchester, na região leste, não contam com pavimentação em uma rua sequer.

Para Maria Helena Rigitano, professora de arquitetura da Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Bauru, a situação é reflexo da expansão urbana do município, iniciada na década de 1940. “Nesse período começaram a ser abertos loteamentos em locais distantes da cidade. Como na época não existia uma legislação específica que regulamentasse essa questão, a maioria dos empreendimentos acabou sendo entregue sem dispor de serviços básicos de infra-estrutura”, explica.

A lei federal número 6.766, de 1979, foi a primeira a estabelecer regras para a abertura de loteamentos, mas os bairros de Bauru afetados pela falta de pavimentação são de ocupação bem mais antiga. Jaraguá e Santa Edwirges começaram a ser abertos ainda nos anos 60. Mesmo o Jardim Manchester, um dos mais recentes da cidade, já estava oficializado antes da promulgação da lei.

A carência de infra-estrutura se converteu numa pesada herança para os moradores dos bairros da periferia. Acostumadas a viver em estado de quase completo abandono, essas pessoas passaram a cultivar uma extrema desconfiança em relação ao poder público.

A dona de casa Maria Lúcia de Souza tem 40 anos, mora no Jardim Andorfato (zona noroeste) e é casada pela segunda vez. O primeiro marido faleceu há cerca de cinco anos. Ela conta que, antes de morrer, o esposo teria feito uma espécie de profecia a respeito das ruas do bairro.

“Eu estava grávida de minha caçula. Meu marido vivia dizendo que esse bairro só seria asfaltado no dia em que nossa filha completasse 20 anos de idade”, conta Maria Lúcia. Atualmente a garota já tem 4 anos e, pelo andar da carruagem, nada indica que as vias do Jardim Andorfato recebam pavimentação antes que se complete o prazo previsto pelo falecido.

As duas filhas de Maria Lúcia sofrem de problemas respiratórios devido à poeira originada das ruas. Este é apenas um dos inconvenientes que a falta de pavimentação pode ocasionar à vida das pessoas.

Em lugares como Santa Edwirges, Manchester, Tangarás e Pousada da Esperança, as ruas estão desaparecendo em meio às enormes crateras. Quando chove as vias se transformam em lamaçais, e os moradores são obrigados a proteger os pés com sacolas plásticas para sair de casa.

Pelo menos por enquanto, nada indica que esse quadro possa se alterar. A Secretaria Municipal de Obras afirma que irá priorizar a manutenção das ruas já asfaltadas, pelo fato delas receberem um maior fluxo de veículos.

Projetos envolvendo os bloquetes de concreto se encontram paralisados atualmente. Além disso, a secretaria conta com recursos limitados para cuidar das vias do município. Do orçamento anual de aproximadamente R$ 20 milhões, pelo menos R$ 10 milhões são destinados ao pagamento dos funcionários.

Com os R$ 10 milhões restantes, a secretaria tem de cuidar de 11 mil quadras pavimentadas, 600 quilômetros de estradas rurais e alguns milhares de quarteirões de terra. Além disso, o órgão ainda é responsável por fazer funcionar a Usina de Asfalto (cujos gastos mensais giram em torno de R$ 400 mil) e pela manutenção da maioria dos prédios públicos do municipais.