08 de julho de 2026
Saúde

Medo de ir ao médico

Marcelo de Souza
| Tempo de leitura: 6 min

Ir ao médico nem sempre é sinal de que um problema se aproxima. Muito pelo contrário. Visitas periódicas ao médico podem ser uma maneira de preservar a saúde e se prevenir contra males que costumam chegar com a velhice. A maioria dos homens, porém, não encara o assunto desse jeito. De acordo com pesquisas, eles se sentem ameaçados diante da simples sugestão de procurar um especialista ou fazer um check-up. A teimosia e a ignorância fazem com que o câncer de próstata, por exemplo, seja um dos principais tumores a afetar o sexo masculino.

Este ‘medo’ não é novo. Culturalmente o homem se sente superior à mulher em vários sentidos, inclusive no que tange à saúde. Não é por acaso que a cultura machista popularizou a mulher como ‘sexo frágil’, algo que, se confrontado com a realidade, será facilmente derrubado, já que pesquisas recentes mostram que a mulher vive, em média, sete anos a mais do que o homem.

O médico pneumologista Carlos Eduardo Sacomandi afirma que a mulher tem uma postura mais preventiva, enquanto o homem só procura o profissional de saúde como último recurso. “A mulher vai ao médico para prevenir, e o homem para se tratar”, comenta.

Sacomandi ressalta que é possível perceber no dia-a-dia a diferença que existe entre os sexos na hora de cuidar da saúde. Na última quinta-feira, em seu consultório, das dez consultas agendadas, oito eram para mulheres e apenas duas eram para homens, o que, segundo ele, é comum acontecer.

Uma das razões que podem afastar o homem dos consultórios é o medo de descobrir alguma enfermidade. Segundo Sacomandi, observa-se que os oncologistas e urologistas estão entre os profissionais mais temidos, por estarem relacionados com o câncer e o temido exame de toque retal, usado para diagnosticar problemas na próstata, algo que ainda deixa os homens temerosos. Este receio também foi apontado em uma pesquisa realizada pelo sociólogo e doutor em saúde pública Romeu Gomes, no Instituto Fernandes Figueira (IFF) da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), no Rio de Janeiro, que teve como objetivo identificar os principais motivos da baixa freqüência com que os homens vão ao médico. De acordo com Gomes, ainda existe no imaginário masculino a velha máxima de que ‘quem procura, acha’. Por isso, a maioria dos homens ainda resiste a realizar os exames mais simples, com receio de alguma enfermidade escondida ser detectada. “Vamos supor, eu vou lá e descubro que tenho um câncer, então deixa quieto”, comenta.

Essa postura de se esconder pode ter conseqüências graves, já que a tendência de se tratar ao invés de prevenir nem sempre funciona. Basta ver que, em casos de câncer na próstata, por exemplo, o maior aliado do homem é justamente detectar a doença no início e começar o tratamento, o que vale para outras doenças.

Pesquisa

Por conta desse contexto, o Ministério da Saúde lançou, recentemente, a Política Nacional de Atenção à Saúde do Homem, que tem por objetivo elaborar uma pauta de projetos voltados ao combate de problemas como câncer de próstata, tabagismo e obesidade.

A revista ‘Cadernos da Saúde’ destacou o tema, divulgando os resultados da pesquisa realizada no IFF, sob coordenação do sociólogo Romeu Gomes. A pesquisa foi feita com 28 homens divididos em dois grupos, dez com baixa ou nenhuma escolaridade e 18 com nível superior. O estudo teve como ponto de partida trabalhos anteriores, os quais constataram que, em geral, a presença masculina nos serviços de atenção primária à saúde no Brasil é menor do que a feminina.

Segundo Gomes, o objetivo principal da pesquisa é entender as explicações que os homens dão para não ir ao médico, já que do 28 entrevistados todos concordaram que essa tendência de não procurar os serviços de saúde realmente existe.

O sociólogo destaca que as razões culturais estão em primeiro lugar na lista de ‘desculpas’. Independentemente da escolaridade, os homens não foram educados para cuidar da saúde, pois há o mito da masculinidade, fortaleza e ‘invencibilidade’, jogando para a mulher a condição de ‘sexo frágil’.

“Culturalmente não há essa prática, na educação dos homens, ao contrário da mulher, que desde cedo é estimulada a se cuidar”, afirma.

Outra razão que explicaria a baixa freqüência dos homens nos consultórios é o trabalho. Na pesquisa do IFF, os homens, principalmente do grupo com baixa escolaridade, colocaram este fator como empecilho para não ir ao médico. O fato desta razão ser mais difundida entre aqueles com menos estudo está no fato de que os serviços públicos não funcionam em horários alternativos.

De acordo com Gomes, eles apontam dificuldades como jornada a cumprir, o serviço não o liberar, entre outras. Em linhas gerais, se antigamente usava-se a ida ao médico como forma de ‘enforcar’ o dia de trabalho, atualmente ocorre o inverso, até pelo receio de perder o emprego, caso se descubra que o tratamento deve ser mais longo.

Um ponto surpreendente foi detectado nos indivíduos com ensino superior. Segundo Gomes, eles ainda relacionam os serviços básicos com as mulheres, crianças e idosos. O sociólogo aponta que a imagem dos serviços de atenção primária é de um espaço mais feminino ou das crianças. Uma das causas desse pensamento é o fato de a maioria dos programas ser voltada para esses grupos. “Só recentemente, com a atual política do Ministério da Saúde, que surgiram ações voltadas para o homem”, ressalta.

No entanto, Gomes destaca que a baixa freqüência do homem nos consultórios não é privilégio do Brasil. Em outros países, inclusive nos mais desenvolvidos, prevalece o mesmo tipo de situação. Ele acredita que a nova mentalidade do Ministério da Saúde, em promover ações específicas para a saúde masculina, pode reverter essa situação.

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‘Notícia ruim’

Pesquisa realizada em 2002 pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) mostrou que, depois de uma certa idade, a ida ao médico costuma ser associada a doença e morte. Os motivos para esta associação são culturais, já que os homens de meia-idade cresceram num ambiente em que o médico era visto como vilão, um mensageiro de notícias ruins. Por isso, eles relutam tanto em procurar um especialista, fazer exames de rotina e realizar um check-up.

Enquanto se é jovem, acredita-se que é possível superar a morte. Mas, com a chegada da meia-idade, o envelhecimento mostra a sua face e muitos se intimidam diante dela. Mas, na verdade, a ida ao médico não deveria ser associada a doenças. Trata-se apenas de um hábito, que pode e deve ser cultivado em nome da boa saúde.

O principal problema é que os homens ainda não assimilaram o conceito de prevenção. Prevenir-se é uma forma de evitar doenças ou diagnosticá-las precocemente, permitindo uma maior chance de cura. A mulher parece entender melhor a proposta, por estar mais em contato com suas sensações, com o corpo. Para muitas, cuidar do físico é uma rotina e o médico é encarado com mais normalidade. (MS)