08 de julho de 2026
Saúde

Fisioterapia: aliada no combate à dor de cabeça

Cristiane Goto
| Tempo de leitura: 6 min

Em que pese a correria do mundo moderno, a cefaléia, mais conhecida como dor de cabeça, é uma das principais queixas da população. Segundo a Sociedade Internacional da Cefaléia, estima-se que 76% das mulheres e 57% dos homens têm um episódio de dor por mês. A boa notícia é que, diante deste quadro, profissionais de várias áreas estão se unindo para tratar o problema. Entre elas, a fisioterapia, considerada uma poderosa ferramenta no combate à cefaléia.

A dor de cabeça tensional (veja outros tipos nesta página) pode ser provocada por distúrbios na articulação temporomandibular (ATM) - a qual prende a mandíbula ao crânio - e, mesmo sem perceber, qualquer indivíduo está sujeito a desenvolver este problema, aponta a fisioterapeuta Eloísa Nelli.

“A disfunção da ATM é o funcionamento anormal desta articulação, de seus ligamentos, dos músculos da mastigação, ossos maxilar-mandíbula, dentes e estruturas de suporte dentário”, detalha. Ela observa que a ATM é a mais complicada do corpo. “A ATM abre e fecha como uma dobradiça, e desliza para frente, para trás e lateralmente. Durante a mastigação, ela é submetida a uma grande pressão”, diz, ressaltando que esta articulação contém uma “peça” cartilaginosa denominada disco, que impede o atrito entre a mandíbula e o crânio.

Segundo Nelli, a disfunção da ATM está relacionada a hábitos comuns, como o apertamento dentário, bruxismo (leia mais abaixo), roer unhas, mastigar chicletes, postura da cabeça, costume de prender o telefone com o queixo, ou ainda apresentar fatores relacionados ao estresse, depressão e ansiedade ou eventos traumáticos. Entre os sintomas da ATM se destaca a dor de cabeça, mas podem ocorrer dor de ouvido ou zumbidos; dor ou cansaço dos músculos da mastigação; ruídos articulares, como estalos; e dificuldade para abrir a boca.

Para diagnosticar casos de cefaléia e disfunção da ATM, é necessária uma equipe formada por fisioterapeutas, médicos, dentistas, psicólogos e educadores físicos, entre outros profissionais. “A fisioterapia possui muitos recursos para o tratamento das cefaléias tensionais, incluindo as cefaléias decorrentes da disfunção da ATM”, aponta Nelli.

Tratamento

O grande problema, enfoca Nelli, é que muitas pessoas tratam apenas um dos sintomas e, raramente, a causa. “É por isto que sofrem de dores recorrentes, por meses e até anos ou vidas inteiras, mas, para as dores de cabeça de origem tensional, que são a maioria, já existem tratamentos fisioterapêuticos eficientes, como a técnica de miofasciaterapia e as pompages, entre outras.”

Com a intervenção destas técnicas, é possível diminuir as tensões dos músculos articulares e alterar a postura incorreta do pescoço em relação à cabeça, explica. Em outras palavras, o fisioterapeuta pode “desativar” pontos da dor presentes nos grupos musculares e auxiliar o paciente a alongar e fortalecer estes músculos, o que resolve, muito provavelmente, as crises de cefaléias.

Além disso, em relação à disfunção temporomandibular, é fundamental trabalhar no reposicionamento da mandíbula, da maxila e da região cervical (pescoço), por meio do relaxamento da tensão muscular “A massagem facial é importante para o tratamento, bem como o fortalecimento muscular, para prevenir e corrigir a assimetria facial apresentada”, aponta Nelli.

Ela ressalta que, além de reduzir a dor, o tratamento busca limitar sua recorrência, restabelecer função mandibular confortável e o padrão de vida normal o mais rapidamente possível. “A intervenção precoce de um fisioterapeuta poderá ajudar a manter uma boa postura e as técnicas de relaxamento poderão evitar a dor de cabeça, bruxismo, apertamento dentário e dores faciais”, pontua Nelli.

- - -

Bruxismo pode levar a distúrbios na articulação

A disfunção na articulação temporomandibular (ATM) está relacionada, entre outras causas, ao bruxismo, caracterizado pelo “apertamento” constante dos dentes ou pelo desgaste (ranger), aponta o psicólogo e psicodramatista João Ronaldo Soares, que realizou uma pesquisa sobre o tema.

Segundo ele, de tanto apertar ou ranger os dentes, o indivíduo corre o risco de desenvolver problemas na articulação e provocar a cefaléia. “Isto pode acontecer 24 horas durante o dia, ocasionando dores horríveis de cabeça. Em alguns casos só acontece à noite e a pessoa só descobre se alguém alertá-la.”

Soares ressalta que o bruxismo é apenas um efeito. Sua causa está relacionada ao estresse e a traumas de infância, principalmente no relacionamento parental. No seu estudo, o psicólogo dividiu os bruxistas em dois grupos: um associado ao Homem-Aranha e outro ao Hulk, ambos personagens das histórias em quadrinhos.

“O Hulk, por exemplo, é mais agressivo; ele explode por qualquer coisa e, na sua história, seu pai o perseguia, usava-o para experiências genéticas. Já o Homem-Aranha, cuja figura paterna é ausente, quem cuidava dele eram os tios, o que também gera agressividade. Isto pode ser comparado ao comportamento de um bruxista que, na infância, teve dificuldades de relacionamento parental”, diz.

De acordo com ele, o distúrbio na ATM costuma se instalar até os 5 anos de idade e, depois, a pessoa pode sofrer algum tipo de estresse e regredir a este período. Neste contexto, o trabalho terapêutico é fundamental.

“Existem três fases de desenvolvimento, uma delas é o ‘eu ingeridor’, quando a criança descobre que o que vem de fora não é dela nem da mãe e começa a estruturar a maneira de digerir as coisas fisicamente e fazer simbolizações futuras. E o bruxista tem dificuldades na simbolização. Quando precisam simbolizar, não conseguem fazê-lo de maneira racional e tentam resolver o problema como se ele fosse físico”, diz, explicando que a psicoterapia ajuda a pessoa a tomar consciência do corpo e dos seus sentimentos.

Além dos sintomas físicos, aponta o psicólogo, existem compulsores emocionais que ajudam a identificar um possível bruxista. “Ele normalmente é perfeccionista, tem um nível de exigência alto em cima de si mesmo e dos outros, faz coisas além de sua capacidade; está sempre correndo, quando tem problemas não procura ajuda e tenta agradar o outro para se sentir aceito.”

Soares criou uma “fórmula” para curar o bruxismo: a reparentização, ou seja, a substituição das figuras parentais (pai e mãe) que foram agressivas e estressantes na infância, por figuras parentais mais amorosas. Mas regressão, terapias alternativas, florais, relaxamento e trabalho que estimulem a consciência corporal também ajudam no combate ao bruxismo, acrescenta ele. (CG)

- - -

Tipos

Cefaléia (ou dor de cabeça) é o termo usado para descrever qualquer dor que ocorre em uma ou mais áreas do crânio, face e pescoço, observa a fisioterapeuta Eloísa Nelli. Segundo ela, a dor pode ser crônica, recorrente ou ocasional, com intensidade leve a grave, o suficiente para afetar as atividades do cotidiano.

Nelli explica que a cefaléia é causada por estímulos na rede de fibras nervosas dos tecidos, músculos e vasos sangüíneos da cabeça e base do crânio. “A causa mais comum é a contração dos músculos posteriores do crânio ou da coluna cervical, chamada de cefaléia de contração muscular ou tensional, sendo responsável por 90% dos pacientes que procuram tratamento.” De acordo com a fisioterapeuta, as cefaléias podem ser primárias, maioria entre todas as dores de cabeça existentes; ou secundárias, em geral associadas a uma condição patológica.

Há três tipos principais de cefaléia primária: enxaqueca, cefaléia em salvas ou tensional, sendo esta última o tipo mais comum. “Os episódios usualmente se iniciam na meia-idade e geralmente se associam a estresse, ansiedade e depressão, contribuindo com uma excessiva contração dos músculos da face, do crânio e da região cervical.” A cefaléia em salvas, aponta ela, ocorre geralmente em períodos de semanas, às vezes meses.

Já a cefaléia secundária, aponta a fisioterapeuta, pode estar associada a doença vascular, trauma, infecção, problemas matabólicos, doenças dos olhos, ouvido, dentes, seios da face ou por algum tipo de disfunção no sistema que engloba as estruturas ligadas à entrada de ar e alimentos no organismo. (CG)