09 de julho de 2026
Bairros

Contra o frio, fogo, papel e coragem

Gustavo Cândido
| Tempo de leitura: 3 min

“Não há o que fazer, a gente tem que enfrentar”. A frase do catador de papelão Sebastião Aparecido Maia resume a situação de muitos bauruenses que não têm como fugir do frio durante a madrugada. No caso de Maia, toda sua proteção se resume a um colchão bem usado e dois cobertores do mesmo estado. “A gente passa muito frio”, diz Hélio Gonçalves Junior também catador de papel, colega de marquise de Maia. Para tentar se proteger, ele usa o máximo de papel e jornal possível para se cobrir enquanto dorme ao lado do carrinho no qual coloca o material que recolhe.

Ontem à noite, os dois se preparavam para enfrentar aquela que era prevista para ser a madrugada mais fria do ano. Segundo o técnico auxiliar de pesquisa do Instituto de Pesquisas Meteorológicas (IPMet) da Unesp, Cássio Kleber Corrêa da Silva, a temperatura mínima esperada era de 7 graus, podendo baixar até 5 graus. A madrugada mais fria do ano até ontem havia sido a do dia 10 deste mês, quando os termômetros registraram 8,4 graus.

Há mais de 20 anos recolhendo material reciclável nas ruas de Bauru, Maia e Gonçalves Junior lembram que o inverno é a pior época do ano para quem não tem onde morar. “Quando faz frio e chove é pior ainda porque a gente não tem como se proteger”, diz Gonçalves Junior. A dupla revela que muitas entidades ajudam a com distribuição de roupas e cobertores e comida. De vez em quando, dizem que também vão ao Albergue Noturno. A entidade, mantida pelo Centro Espírita Amor e Caridade (Ceac), chega a receber até 40% mais pessoas na época do frio, segundo o administrador do centro, Jorge Freires. Embora o albergue tenha como objetivo primordial atender pessoas que estejam de passagem pela cidade, é comum que moradores de rua passem por lá para comerem, tomar banho e dormirem. Alguns só comem e vão embora. “Ninguém vai negar alimento para uma pessoa necessitada”, diz Freires.

Fogo

Na favela Ferradura Mirim, ontem à noite, uma família inteira tentava espantar o frio envolta de uma fogueira na rua 3. Segundo Sueli Duarte, quando chega o frio, o bairro fica lotado de fogueiras pelas esquinas. “É só fazer frio que a gente faz a fogueira”, diz Ivone Aparecida da Silva, que dividia o calor do fogo com Davi Elias, Gabriel Elias e Maria Luiza Fernandes da Silva, seu companheiro, seu filho e sua mãe.

Para a família, fazer a fogueira é uma maneira de se preparar para dormir. “Ajuda a esquentar o corpo. Quando a gente entra embaixo da coberta fica mais quente”, diz Maria Luiza. Para ela, o inverno é a pior época do ano, principalmente porque, às 6h quando ela sai de casa para trabalhar, ainda está muito frio.

Sem proteção

Para quem trabalha de madrugada também não há solução a não ser criar coragem para encarar a baixa temperatura. É o caso do frentista Laércio Bueno da Silva que trabalha em um posto que fica aberto 24 horas. “Não tem como escapar”, diz sem esperança. Silva revela que mesmo com o frio intenso tem que ficar próximo às bombas de combustível e não há como se abrigar.

A solução é aumentar a quantidade de agasalhos e casacos e não dispensar uma bebida quente como chá ou café. Há oito anos na profissão, ele se diz acostumado à situação, apesar de não deixar de considerá-la dolorosa. Nem lidar com a água fria lhe assusta mais. “Quando tem que lavar o pára-brisa do carro