09 de julho de 2026
Geral

Aumenta número de mulheres que lutam contra o alcoolismo

Gustavo Cândido
| Tempo de leitura: 6 min

O número de mulheres dependentes do álcool que buscam tratamento aumentou 80% em todo o Estado entre 2004 e 2006. Em Bauru, o Centro de Atenção Psicossocial Álcool e Drogas (Caps AD) afirma que a cidade acompanha a média estadual. Atualmente, cerca de 250 pessoas são atendidas mensalmente na unidade. Apesar de mais de 90% serem homens, o número de mulheres que buscam ajuda aumenta constantemente.

De acordo com uma pesquisa divulgada ontem pela Secretaria de Estado da Saúde realizada em 43 Caps AD espalhados por São Paulo, em 2004 um total de17.816 mulheres procuraram atendimento. No ano passado, esse número foi de 31.674 dependentes. De acordo com a enfermeira Luciana de Oliveira Martins, coordenadora do Caps AD de Bauru, esse percentual também se aplica na cidade. “Apesar dos homens representarem a grande maioria, as mulheres estão nos procurando cada vez mais”, observa a especialista que há nove anos trabalha na área.

Segundo Martins, o que caracteriza o alcoolismo entre as mulheres que são atendidas pelo centro é o fato de geralmente é causado por um outro transtorno psiquiátrico. “Percebemos após conhecer a história dessa mulher, que o principal transtorno psiquiátrico que ela apresenta é uma depressão muito profunda. E essa dependência do álcool é fundamentado nessa depressão”, conta.

Martins ainda revela que o perfil da mulher dependente do álcool que procura atendimento no Caps é da dona de casa de meia-idade, que sofre de um vazio e tristeza muito grandes. A mulher também difere do homem na hora do tratamento. “Elas demoram mais para buscar ajuda e são mais difíceis no momento de aderir ao programa”, conta Martins. Um dos motivos para a relutância é cultural, já que a negação do vício e a cobrança da família e sociedade são maiores entre as mulheres.

Ao vencer essas barreiras, as dependentes do álcool que procuram o Caps iniciam o tratamento focado no acompanhamento psicológico e medicamentos. O atendimento ao público do Caps AD é de segunda-feira a sexta-feira, das 7h às 17h. O acolhimento aos dependentes químicos e do álcool acontece de terça-feira a quinta-feira, das 8h às 10h. O Caps AD fica na rua Cussy Júnior, 12-27.

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‘Solidão me levou para o vício’, diz dona de casa

Há 20 anos a dona de casa Margarete, 70 anos, moradora da Vila Cardia, não bebe nada alcoólico. Graças à ajuda dos Alcoólicos Anônimos (AA), entidade que ela freqüenta, Margarete recuperou o controle da sua vida após cinco anos sendo vítima da doença que a pegou em momento sensível, aos 45 anos, quando se deu conta de que, apesar da família, se sentia muito sozinha. E a porta de entrada foi um simples copo de cerveja que experimentou em uma festa.

Na entrevista a seguir, Margarete, pseudônimo que ela adotou para não revelar sua identidade, regra básica do AA, a dona de casa resume sua história que, segundo ela, se parece com a de todos os outros alcoólatras.

Jornal da Cidade – Como a senhora começou a beber? Margarete – Levei 5 anos para chegar ao fundo do poço. Fui beber o meu primeiro copo de cerveja aos 45 anos. De um copo de cerveja em uma festa familiar, em cinco anos eu estava bebendo um litro de vodca por dia.

JC – O que levou a senhora para a bebida? Margarete – Eu fui uma supermãe, o meu marido era um esposo adorável. Tive meus pais que sempre moraram comigo. Perdi o meu pai, depois vim a perder a minha mãe e senti um vazio muito grande. Meus filhos cresceram, já estavam na faculdade, não precisavam mais de mim, já tinham a vida deles, com trabalho, namorada. Meu marido trabalhava muito, chegava em casa tarde, então fiquei na solidão: sem pai nem mãe, sem filho, meu marido era trabalhador mas não estava presente. O alcoolismo é chamado de doença da solidão. Solidão me levou para o álcool. No começou foi gostoso, supriu. Um dia minha família me chamou atenção e eu disse que parava quando quisesse, o que é uma ilusão. Foram muitas promessas que eu não consegui cumprir.

JC – Como a senhora chegou até os Alcoólicos Anônimos? Margarete – Eu estava resolvida a procurar uma solução, porque já tinha tentado parar de beber e não tinha dado certo. Chegamos, eu e meu marido, ao Al-Anom e lá eles nos indicaram o AA e fomos no dia seguinte. Eu pensava que iria lá uma vez só e o problema iria acabar. A recepção foi muito calorosa e logo de cara aquela oração da serenidade me deixou muito tocada. Fiquei lá para assistir a reunião e vi aquelas pessoas falarem da minha vida... Pensei que o meu marido tivesse ido lá antes e contado a minha vida para aquelas pessoas, estranhei, até que percebi que elas não estavam falando da minha vida, mas da vida delas. As vidas dos alcoólicos são todas iguais. Muda um pouco aqui, um pouco ali. Um sofreu mais, outro sofreu menos, mas todos nós sofremos, perdemos e nossos depoimentos são todos iguais

JC – A mulher alcoólatra sofre muito? Margarete – As mulheres têm uma dificuldade muito grande. A família esconde a mulher alcoólatra o máximo que pode. Depois que vê que não tem mais jeito ela é atirada para a rua onde, sem proteção, sem amparo, acaba na prostituição. As mulheres alcoólatras são muito sensíveis, muito carentes, então qualquer pessoa que dê carinho, que dê um sorriso, conquista a mulher alcoólatra. Não foi o meu caso. Meu marido e minha família me deram muito apoio.

JC – Sozinha a pessoa não consegue deixar a bebida? Margarete – Até pode sair através de religião, por força de vontade, mas não tendo serenidade, um espaço como do AA ou de outras irmandades é muito difícil. O AA é um programa para largar a bebida evitando o primeiro gole.

JC – Muitas mulheres freqüentam o AA em Bauru? Margarete – Tem de 7 a 8 mulheres que vão regularmente. Outras vão, ficam um mês, param de beber e acham que não precisam mais ir. Elas não entendem que é um programa para a vida inteira. A pessoa é alcoólatra para a vida toda, por isso precisa se controlar.

JC – Há quanto tempo a senhora não bebe? Margarete – Há 20 anos nem vinagre entra na minha casa. Se vou em uma festa e fico sabendo que o bolo foi regado com champanhe eu não como. Eu estou tão feliz que tenho medo de recaída. Às vezes uma bobagenzinha dessas faz tudo voltar à estaca zero. Quando vou em festas na casa dos meus filhos, em respeito a mim eles não servem bebidas alcoólicas. O AA fez na minha vida um milagre. Eu retribuo estando presente, estendendo a mão para uma mulher que esteja presente... Eu entro dentro do AA e o AA entra dentro de mim.