09 de julho de 2026
Bairros

Gafanhotos invadem vários bairros

Lígia Ligabue
| Tempo de leitura: 3 min

Eles estão nos batentes de portas e janelas, enfileirados nos fios de energia e camuflados em maçanetas. Há cerca de um mês, gafanhotos, uma praga que não faz parte do cotidiano urbano bauruense, começaram a atormentar a vida de muita gente. Aumento da área ocupada por cana-de-açúcar, desmatamento da mata nativa, falta de predadores naturais e até o aquecimento global foram apontados como hipóteses para a proliferação dos gafanhotos em Bauru.

Até ontem à noite havia registro de gafanhotos infestando o Centro, Vila Independência, Jardim América, Parque Vista Alegre, Jardim Aeroporto, Vila Souto, Núcleo Geisel, Jardim Redentor, Vila Pacífico, Higienópolis, Jardim Dona Sarah, Núcleo Nobuji Nagasawa e Jardim Terra Branca.

No último final de semana, Eiti Suzuki, morador do Jardim América, retirou mais de 600 insetos do seu jardim. Para proteger as rosas e cravos caprichosamente plantados no pequeno canteiro, todos os dias ele retira os gafanhotos que se camuflam no jardim. “Já moro aqui há 30 anos e nunca tinha visto isso. É muito bicho”, se espanta. Ontem, ele separou uma sacolinha plástica com os insetos. Enquanto a reportagem conversava com Suzuki, ele ainda encontrou mais alguns devorando as folhas das suas flores. “No início da semana, eram tantos voando ao redor das luzes dos postes que não se conseguia ler a placa com o nome da rua”, conta.

A assistente administrativa Danielli Cristian Cardoso Roa afirma que, apesar de não ter jardim, a sua residência no Terra Branca está infestada de gafanhotos. “Abrimos a janela e eles caem em cima da gente. Vamos abrir a porta e eles estão na maçaneta. É terrível”, conta. Para livrar a casa dos insetos, todos os dias ela varre os gafanhotos e os recolhe em sacolas plásticas. “Encho meia sacolinha todos os dias”, calcula. Ela lembra que no ano passado, chegou a encontrar alguns gafanhotos na sua casa, mas não tantos como agora.

Biólogos de universidades, poder público e organizações não-governamentais consultados pelo Jornal da Cidade não souberam precisar o motivo da proliferação dos gafanhotos na área urbana de Bauru. Entre as hipóteses levantadas, os especialistas apontaram o aquecimento global e a diminuição da população de predador natural dos gafanhotos, como pássaros. A expansão da lavoura de cana-de-açúcar pode ter afetado esse equilíbrio, diminuindo as áreas de alimentação dos gafanhotos e também espantando as aves que devoram esses insetos.

Inseto é a 8ª praga citada na Bíblia

Na Bíblia, os gafanhotos são a oitava das dez pragas enviadas por Deus pelas mãos de Moisés contra o faraó para que o povo de Israel fosse libertado do Egito. Na enciclopédia virtual wikkipedia, as pragas - água em sangue, rãs, piolhos, moscas, praga nos animais, sarna que arrebentava em úlceras, granizo, gafanhotos, trevas e morte dos primogênitos - são vistas como uma série de fenômenos desencadeados em conseqüência de uma alteração climática.

Essa alteração esquentou a água do Nilo, provocando a reprodução descontrolada de uma alga que provoca hemorragia nos peixes, matando-os e intoxicando as águas com sangue. Essa intoxicação fazia com que as rãs e sapos fugissem, infestando a região.

Quando esses sapos morreram, aumentou a população de insetos, inclusive do maruim, um mosquito de picada dolorida. A praga nos animais pode ter sido causada por uma das moscas que proliferaram, a mosca dos estábulos, que ataca mamíferos. Já as feridas podem ter sido causadas pelo mormo, uma doença eqüina que também ataca o homem e é transmitida pela mosca dos estábulos.

Apesar de incomum, granizo pode cair no deserto, o que causou a destruição de plantações. Os gafanhotos são uma praga comum na região e provavelmente uma tempestade de areia que durou dias encobriu a luz do sol. Já a morte dos primogênitos, de acordo com o portal, pode ter sido causada por um hábito dos moradores da região. Como no Egito antigo cereais eram guardados em celeiros, podem ter desenvolvido bolor altamente tóxico e causado a morte dos primogênitos, que tinham prioridade nas refeições.(LL)