Quando Marco Antonio, diante do cadáver de César, disse que todos os conspiradores eram homens honrados, isso de nada adiantou para reanimar o corpo ensangüentado do grande condutor, morto pelos punhais dos senadores de Roma. O mal estava consumado. Só restava salvar a honorabilidade dos criminosos. A história parece que se repete nessa farsa dos corruptos começarem a acusar a Polícia Federal de “exageros”. Foram ao presidente Lula para exigir a salvaguarda da honra. “E se grampearem a todos nós? Podemos cometer deslizes e até assassinar César, a personificação do Estado, mas somos desonestos honestos!” Diante de tão lógicos argumentos, Lula mandou verificar. A única figuração desigual que eu vi na televisão foi quando a Polícia Federal, devidamente autorizada por mandados expedidos pela Justiça, conduziu os vendilhões pelo braço. Ainda permitiu que escondessem as algemas com o casaco. A elite corrupta sente-se envergonhada metida a ferros, mas não tem o menor constrangimento de assaltar o erário. Nas favelas a Polícia Militar trabalha sem esses requintes. Os marginais são arrastados pela carapinha, levados à cadeia sem mandados e não têm direito a foro privilegiado.
Quem tem dinheiro pode pagar advogado famoso para conseguir habeas-corpus? Durante a prisão preventiva, sempre muito curta, os parentes se encarregam de comparecer com cobertores, aparelhos de TV, ventilador. A comida vem de fora, de algum restaurante famoso. De todos os que foram presos nessas operações Sanguessuga, Mensaleiros, Anaconda e seja lá que nome tenha, o único que cumpre pena, assim mesmo em casa, é o juiz Lalau, de pijama sem listras. É evidente que o ministro do STF que mandou soltar a quadrilha sabe que, uma vez na rua, seus membros vão correr atrás da destruição de provas e combinar com os comparsas a melhor forma de se safar.
A Operação Navalha serviu também para despertar nos congressistas a necessidade de se fazer a sempre propalada Reforma Política. O presidente da Câmara Arlindo Chinaglia (PT-SP) vai colocar o projeto em pauta na terça-feira. Vem aí a obrigatoriedade da fidelidade partidária, voto em lista, financiamento público de campanhas. Vai melhorar alguma coisa. Por exemplo: as campanhas eleitorais, cujos custos saem da propina dos empreiteiros que, por sua vez, roubam o povo, agora será custeada diretamente pelo Tesouro, ou seja, com o nosso dinheiro. Pelo menos os políticos não vão ter que correr atrás de empresas para financiar campanhas. Deputado deixará de ser lobista de quem o financiou com o caixa 2.
Para melhorar as chances de continuidade no Poder, que é sempre um regaço aconchegante, a Reforma vai criar o voto em lista. Isto é: o eleitor votará no partido e não mais no candidato preferido. O partido tem uma lista e ele é que decide a ordem de colocação dos candidatos. Vai elegendo de cima para baixo. É evidente que essa lista será composta pelos atuais parlamentares. Gente nova vai ter que rebolar muito para entrar no rol desses privilegiados.
Só que o problema é mais em cima. A corrupção começa no financiamento à campanha eleitoral e ganha volume nas emendas orçamentárias. Essas é que têm que ser navalhadas. Deputados e senadores oferecem emendas ao orçamento, de acordo com a conveniência dos seus financiadores e depois cobram a liberação do governo. Se o governo precisa de apoio no Congresso, abre o cofre. Se o parlamentar não colabora com o governo, este usa da sua faculdade de “contingência”. Joga no lixo ou paga o que quer, de acordo com o seu interesse político. Em 1993 havia a Comissão do Orçamento, composta por 18 baixinhos. Eles é que decidiam que emendas iriam entrar ou ficar de fora da proposta orçamentária. Cobravam por esse trabalho, diretamente das empreiteiras que seriam beneficiadas. Eram os “anões do orçamento”. Descobriram tudo porque o técnico da Câmara que propiciava a maracutaia, enlouquecido pelos milhões de reais das propinas mandou matar a mulher e foi descoberto. Em um dos seus delírios entregou os anõezinhos. Alguns foram cassados, outros renunciaram. Nenhum foi preso. Todo ano é a mesma coisa. Aconteceu com as ambulâncias do tal Vedoin, adquiridas superfaturadas com verbas orçamentárias. Dessa vez é a Gautama, um dos nomes de Buda. Significa “vaca sagrada”, em sânscrito. A escolha do nome pelo empreiteiro deve ter sido inspirada nas grossas tetas da Nação. (O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC )