10 de julho de 2026
Geral

Símbolo do modernismo, Palácio das Cerejeiras clama por reforma

Adilson Camargo
| Tempo de leitura: 4 min

As pessoas que passam pelo Palácio das Cerejeiras, sede do poder público bauruense, não imaginam que estão diante de uma obra que representa um momento histórico na vida da humanidade. Projetado em 1953 pelo arquiteto Zenon Lotufo, o prédio é um símbolo do modernismo pós-guerra, que privilegiava a arquitetura simples e econômica. Afinal de contas, o mundo acabava de sair da Segunda Guerra e a escassez de recursos financeiros e materiais era imensa.

O Palácio das Cerejeiras foi inaugurado em 1 de agosto de 1965, na gestão do prefeito Nuno de Assis. Portanto, 12 anos após ser colocado no papel. Mesmo assim preservou suas características originais com as colunas tipo “pilottis” no térreo, espaço interno amplo e sem divisórias (para economizar material) e o “brise-soils” nas janelas para a regulagem da entrada de luz e ar (para economizar energia).

Quase 42 anos após sua inauguração, a sede do poder público municipal é a imagem do descaso com a preservação de um monumento histórico. Na parte externa, o prédio está cheio de “verrugas”, segundo definição do arquiteto Maurício Costa. São interferências que foram feitas ao longo do tempo e que descaracterizaram o projeto original.

Estruturas metálicas que servem de apoio aos aparelhos de ar-condicionado estão por toda parte e não seguem nenhuma padronização. Cada uma é de uma forma diferente. Muitas estão vazias e enferrujadas, mesmo assim continuam lá, penduradas nas janelas.

Ainda do lado externo, é possível ver canos de PVC fixados nas paredes para escoamento da água da chuva, cabos de energia ou algo parecido e até mesmo uma chaminé de lata que fica na parede voltada para a escola Ernesto Monte. “Isso é uma aberração”, lamenta o arquiteto.

Quem olha o prédio do lado de fora nota ainda alguns outros descuidos com a imagem do Palácio, como uma samambaia crescendo tranqüilamente ao lado da janela no piso do primeiro andar. Trata-se de uma planta que gosta de lugares úmidos. E água é o que não falta onde ela está. Um pouco mais acima da planta são visíveis marcas escuras que a infiltração deixou nas paredes internas e externas, logo abaixo da deslumbrante samambaia. A água corre solta por ali e, ao que tudo indica, não é de hoje que isso vem ocorrendo. Basta ver a quantidade de manchas escuras nas paredes.

Outra imagem desalentadora para quem vê o prédio do lado de fora são as folhas de papel pregadas nos vidros com fita crepe para impedir a entrada do sol no segundo andar. Em algumas partes, a folha caiu, mas a fita crepe permanece.

Não fosse a ação voluntária de uma empresa bauruense, o aspecto visual do prédio da prefeitura estaria ainda pior. As paredes laterais permaneceram por vários dias pichadas, sem que nada fosse feito para apagar a ação irresponsável dos vândalos. Incomodado com o ar de abandono das pichações, o empresário José Garcia Silva Filho mandou seus funcionários até o local, em março último, para pintar a parede e devolver um pouco do respeito que o local merece.

Lotufo foi um dos integrantes da equipe de Oscar Niemeyer na construção do Parque Ibirapuera, em São Paulo. Foi ele também o arquiteto responsável pela elaboração do primeiro Plano Diretor de Campos do Jordão, em 1958.

Não há previsão para reforma

Do lado de dentro do Palácio das Cerejeiras, a situação não é melhor. Em matéria publicada na edição do dia 18 de março no caderno JC Bairros, o repórter Rodrigo Ferrari descreve o prédio em seu interior e concluiu que os problemas vão muito além das pichações e das paredes escurecidas pelas infiltrações.

Hoje, o primeiro e o segundo pisos estão cheios de divisórias de madeira. As divisões podem até dar mais privacidade aos funcionários, mas deixa o ambiente feio e contraria o projeto original do Palácio das Cerejeiras.

Na opinião do arquiteto Maurício Costa, todas as intervenções feitas na prefeitura ao longo dos anos demonstraram um certo descaso com o aspecto histórico do prédio. “As modificações foram feitas sem a menor preocupação em manter a característica original do projeto”, diz ele.

Na avaliação do arquiteto, qualquer interferência no prédio deveria passar antes pela análise de profissionais qualificados e seguir a idéia original do modernismo. “É preciso um pouco mais de cuidado com a obra alheia para não descaracterizá-la”, recomenda.

A última grande reforma realizada no local ocorreu no início dos anos 80, durante o primeiro mandato de Tuga Angerami. É dessa época a construção do terceiro pavimento, onde fica hoje o Gabinete do prefeito.

Não há previsão de quando uma nova reforma ocorrerá no prédio da prefeitura, nem mesmo as mais simples. De acordo com o poder público municipal, não há recursos financeiros nem humano para a realização do serviço nesse momento.

O projeto original do arquiteto Zenon Lotufo incluía dois prédios principais: o Paço Municipal e a Câmara. No entanto, esse segundo edifício, que ficaria ao lado da prefeitura, nunca foi construído. Em seu lugar foi criado um jardim oriental em homenagem à grande colônia japonesa que vive em Bauru. O local ficou conhecido como Praça das Cerejeiras. (AC)