08 de julho de 2026
Ser

Entre quatro paredes

Marcelo de Souza
| Tempo de leitura: 6 min

Houve um tempo em que a chave para levar uma mulher para cama era casar-se com ela (com algumas exceções, é claro). Naquele tempo, que há muito se perdeu, as chamadas ‘moças de família’ tinham de casar se quisessem ter qualquer contato íntimo com um homem. E ai daquela que ousasse fazer alguma coisa antes do casamento. Pois bem, esse tempo passou.

Para comprovar este fato vale citar que a idade média da iniciação sexual feminina caiu de 22,3 (mulheres com mais de 60 anos) para 17,6 anos de idade (mulheres entre 18 e 25 anos), ou seja, a mulher está começando sua vida sexual cada vez mais cedo, e a tendência é que a idade média diminua ainda mais.

Pesquisa realizada pelo Projeto de Sexualidade do Hospital das Clínicas de São Paulo (Prosex)com alunos do ensino fundamental aponta que 72% já beijaram, 25% trocaram carícias nos genitais e 9% tiveram relação sexual. Apenas 21% não fizeram nenhuma atividade relacionada ao sexo.

Apesar da atividade sexual de homens e mulheres começar cedo, ela sofre um revés depois do casamento, como indica o Estudo da Vida Sexual do Brasileiro (EVSB), realizado pela psiquiatra Carmita Abdo, coordenadora do Prosex. O levantamento mostra que a freqüência sexual dos casais é de três relações por semana para os homens e duas relações para as mulheres, metade do que gostariam, segundo a pesquisa. Os números ficam muito aquém do que se espera, já que, normalmente, as pessoas classificam o sexo como um dos pontos mais importantes da vida do casal. O EVSB constatou que 96,1% das brasileiras e 96% dos brasileiros consideram o sexo importante ou importantíssimo para a harmonia do relacionamento. Mesmo tendo um papel crucial, homens e mulheres ainda convivem com medos, angústias e preconceitos relacionados ao sexo. A máxima de que entre quatro paredes vale tudo parece não ser levada tão a sério, e muitos parceiros sexuais ainda mantêm em segredo suas dúvidas.

Os principais problemas, de acordo com Carmita Abdo, estão relacionados com a incapacidade de atingir o orgasmo, por parte das mulheres, e a ejaculação precoce e dificuldade de manter a ereção, por parte dos homens. O EVSB mostra que 58,6% das mulheres não conseguem atingir o clímax, enquanto 58,7% dos homens têm problemas de disfunção.

Diálogo

Mas o que fazer? A psiquiatra afirma que o sexo é semelhante à impressão digital, ou seja, é único. Para apimentar o relacionamento por meio da relação sexual, os casais tentam de tudo, mas uma peça-chave está sendo esquecida: o diálogo.

Segundo ela, existe um ciclo positivo do prazer na vida do casal, que começa justamente com a comunicação, passando por intimidade, sensualidade e atingindo, finalmente, a sexualidade. É evidente que vários elementos contribuem para que a vida íntima se torne melhor, mas muitos casais ainda encaram certas práticas sexuais como tabus e tanto homens quanto mulheres não manifestam suas vontades e fantasias para os parceiros.

Beijos e abraços fazem parte da maioria das relações sexuais. Sexo oral ou anal e masturbação, no entanto, são referidos como parte do ato sexual por um número bem menor de homens e mulheres (veja quadro). “Não há verdade única e absoluta sobre relacionamento de casais. Cada casal decide as práticas e comportamentos adequados para o relacionamento”, destaca Carmita Abdo. No caso de dificuldades sexuais, a recomendação é a mesma: conversas francas. Dividir um problema é sinal de intimidade e uma relação fortalecida. Apenas em pequenos casos o parceiro não estará disposto a ajudar na busca por uma solução, afinal, o problema de um afeta diretamente a vida do outro.

Além disso, compartilhar problemas, temores e dúvidas contribui para a aproximação do casal, o resgate do romantismo e o aumento da intimidade. Não há nada a perder quando se confessa um problema sexual, pelo contrário, pode-se ganhar muito.

Problemas

Ao contrário do que se pensa, violência e problemas financeiros estão intimamente ligados à falta de desejo e problemas na vida sexual dos brasileiros. Pesquisas comprovam que a violência urbana afeta o casal na cama. Nos centros urbanos as disfunções sexuais incidem 2,5 vezes a mais do que nas cidades menores.

Outro problema que aflige os casais é relacionado com as finanças. De acordo com a psiquiatra Carmita Abdo, um casal com problemas financeiros tende a manter menos relações sexuais do que os que possuem uma vida estável economicamente.

Esses problemas atrapalham muito a vida sexual, já que tanto homens quanto mulheres passam a reprimir o desejo pelo parceiro, canalizando a libido para outras finalidades. “Não se alimenta mais o desejo e, no caso dos homens, o desejo é menor do que há algum tempo atrás”, afirma Carmita.

Engana-se quem pensa que os problemas sexuais afetam apenas casais mais velhos, apesar de estar comprovado que, com a idade, homens e mulheres perdem o ‘tesão’, mas nem por isso deixam de ter relações sexuais.

Os casais jovens também podem sofrer por causa da rotina, mas a busca por estímulos nem sempre funciona. Para Carmita Abdo, quebrar a rotina não significa necessariamente usar fetiches, como muitos orientam. É preciso ter criatividade, mas também deve haver cuidados para que os fetiches não se tornem rotina. (MS)

Os prazeres do sexo rotineiro

Para quem imagina que depois do casamento a vida sexual acaba, é importante lembrar que a rotina pode ser fatal à vida sexual, mas não precisa ser uma regra. É possível sentir prazer quando se está há dois, três, dez anos com o mesmo parceiro.

Há uma série de vantagens e prazeres no sexo rotineiro. Um dos pontos positivos: com o passar do tempo, a cumplicidade e o entrosamento entre o casal tende a aumentar. E isso faz bem ao sexo. Na cama, quanto mais à vontade você está em relação ao outro, melhor. O sexo flui com espontaneidade e sem as grandes ansiedades que costumam acompanhar (e atrapalhar) os casais no início do relacionamento.

O lado ruim do sexo rotineiro é a acomodação. Muitas vezes, se pára de buscar novas formas de dar e de sentir prazer ou simplesmente se esquece de namorar. Isso mesmo. A relação sexual costuma perder qualidade quando o casal pára de agir como nos tempos do começo do namoro: se esquece do quanto é gostoso beijar na boca ou jantar a dois ou planejar uma noite de sexo... Enfim, se esquece do quanto é bom namorar – e terminar a noite numa envolvente e apaixonada relação sexual.

Talvez esses ingredientes é que faltem ao sexo rotineiro, mas é fácil incluí-los no dia-a-dia; basta querer e se dedicar, resgatar os comportamentos eróticos do início do relacionamento. Isso somado à alta dose de cumplicidade e entrosamento, adquirida ao longo dos anos juntos, faz com que o sexo e a vida a dois só tenha a ganhar. (MS)