Se analisados sob a ótica da inteligência amorosa, bordões como “amor não é razão”, “quem ama não pensa” ou ainda “Deus é amor” não servem como modelo para os relacionamentos afetivos. Isto porque amor não é um âmbito de emoção exclusiva, sem participação do raciocínio, aponta o psicoterapeuta e sexólogo Joaquim Zailton Motta, que estimula discussão sobre o tema no recém-lançado livro “Amores Humanos, Traições Divinas” (editora All Books).
“Não há pureza emocional no amor nem exclusividade racional no pensamento. O amor pode ser bem mais racional e as idéias muito mais emocionais. Guiado pelo bom sentimento, o pensamento pode ser cada vez mais construtivo e prazeroso”, observa ele, em entrevista concedida ao Jornal da Cidade. Além disso, aponta Joaquim, a maneira divina de amar é algo inatingível, perfeito e desumano. E o homem, ainda que melhore muito o seu jeito de amar, estará sempre imperfeito. “Não cabe seguirmos mais o tipo ‘divino’ de amor que a cultura religiosa nos impôs”, salienta. Na opinião de Joaquim, este é o cenário ideal da nova era da inteligência amorosa, em que a razão e emoção se misturam e se complementam para trilhar o caminho dos prazeres e a satisfação do amor, sem as fraquezas e insuficiências do amor que os seres humanos estão acostumados.
Jornal da Cidade - Qual é o objetivo do livro “Amores humanos, traições divinas”? Joaquim Zailton Motta - Este livro veio da minha observação de que muito dizemos da importância do amor, mas pouco praticamos. O discurso universal sugere que falta amor no mundo, há séculos, mas pouco se consegue fazer para mudar isto. No cinema ou em um espetáculo artístico, as pessoas tentam entender e vivenciar as coisas do amor. Nos espetáculos religiosos da televisão em outros locais, há a preocupação de sugerir que a pessoa é amada, bem recebida e acolhida. Cito ainda um comercial veiculado na TV de um professor que havia sido internado na Febem e, quando se sentiu amado, passou a ter uma vida nova. E é essa a referência. Sabemos que quando a pessoa se sente bem amada, ela tende a ter outro tipo de atitude, ser mais tolerante, compreensiva e aprender a amar. E quando não existe esta interação amorosa, a tendência é surgir a violência porque as pessoas ficam com medo. De certo modo, o amor não é antagônico ao ódio, mas ao medo.
JC - Por quê? Joaquim Motta - É preciso entender o amor como o antagonismo do medo. Por isto, ao lidar com o amor desta maneira, o indivíduo perde o medo. E quanto menos medo ele tiver, menos violento será porque a violência decorre da fraqueza e do momento no qual a pessoa se sente fraca. Ninguém ataca quando está forte. E amando, vivendo relações amorosas, ela não será violenta, este é o principal substrato da inteligência amorosa.
JC - O que significa a era da inteligência amorosa? Joaquim Motta – É a noção de que não há pureza emocional no amor, nem exclusividade racional no pensamento. O amor não é um âmbito de “emoção exclusiva”, sem participação do raciocínio. Inteligência é: “Sempre que sinto, eu penso; sempre que penso, eu sinto”. O amor pode ser bem mais racional e as idéias muito mais emocionais. Guiado pelo bom sentimento, o pensamento pode ser cada vez mais construtivo e prazeroso. Em outras palavras, é necessário trabalhar o aspecto racional sentimentalmente, evitando os bordões de que “amor não é razão” ou “quem ama não pensa”, mostrando que as pessoas realmente pensam amam em conjunto e com a perspectiva de favorecer o amor para diminuir os medos.
JC - Qual é a relação da inteligência amorosa com inteligência emocional? Joaquim Motta - A inteligência emocional implica controle para fins de bom desempenho profissional para que os executivos e trabalhadores, em geral, não se assustem ou se estressem com o mercado e suas duas pressões principais: vertical, das hierarquias, e horizontal, da competição. A inteligência amorosa é a aplicação do raciocínio conectado ao amor para o benefício geral, favorecendo uma verticalização mais democrática e uma competição mais esportiva. A inteligência é algo feito visando o mercado de trabalho e as relações profissionais e a inteligência amorosa é muito mais ampla. Por exemplo, se a pessoa coloca mais amor na relação com aqueles que estão acima dela hierarquicamente, a convivência fica mais democrática, menos autoritária, menos distante e ditatorial. E no plano das pessoas equivalentes, das pessoas que têm o mesmo nível profissional, escolar e convivências em grupos sempre há competições e, se ela coloca mais amor na relação, esta fica muito mais esportiva e construtiva do que predatória e destrutiva.
JC - Por que as pessoas têm dificuldade em desenvolver e aprimorar laços humanos? Joaquim Motta - Penso(sentindo...) e sinto (pensando...) que sabemos muito pouco sobre o amor. Existem poucos exemplos de figuras humanas realmente capazes de amar e muita confusão conceitual sobre o que é ou não é amor. Se estudássemos e nos dedicássemos a conhecê-lo e praticá-lo, mudaríamos este horizonte.
JC - Quais são as principais fraquezas e conflitos que influenciam ou impedem a evolução dos relacionamentos amorosos? Joaquim Motta – São os medos. O medo é a emoção mais primitiva que existe, é a mesma emoção dos animais irracionais, a do medo da sobrevivência. Há também os medos mais “evoluídos”, entre eles ciúme, inveja, culpa e ingratidão. E se a pessoas são capazes de amar, como elas vão se deixar levar pelo sentimento mais primitivo, que é o medo? Daí a possibilidade de ser mais inteligente ao mesmo tempo em que se ama muito.
JC – E como vencer o medo de amar? Joaquim Motta – Este é um ponto difícil. Penso que é possível conseguir isto estudando e criando novos modelos de amor, menos o modelo habitual, que é o divino, de que “Deus é amor”, publicado em outdoors, carros, adesivos. Pode ser que Deus seja amor sim, mas o homem é amor? A pessoa nunca vai chegar no amor divino, por isto é preciso atingir a melhoria do amor humano. É necessário pensar nisto, tirar o modelo de que “Deus é amor” e entrar no modelo de que o “homem também é amor”, claro, sempre imperfeito e incompleto e nunca como amor divino.
JC – É necessário vivenciar o amor em todos os âmbitos? Joaquim Motta – Sim, há três tipos de amor: o amor eros, que é o amor erótico, de casal; o amor philia, que se refere a afinidade, proximidade, amizade, amor de família, amor num ambiente mais próximo; e amor agape, que é o amor social, da caridade, desprendimento.
JC – Mas, afinal, o que é amor? É possível defini-lo? Joaquim Motta – Não. Nossa idéia é desenvolver núcleos e escolas formadas por grupos que estudam o amor. Estudaremos uma cena de novela, por exemplo, que diz que a pessoa ama e por isso faz várias coisas pela outra, mas na realidade se estuda e se percebe que não tinha amor, era outra coisa. Uma cena de ciúme, por exemplo, onde está o amor? É mais medo do que o amor mesmo? Para aprender amor é preciso primeiramente descobrir o que chamamos erroneamente de amor.
JC – Então o amor pode ter conceito diferentes para cada pessoa? Joaquim Motta – Sim, mas as regra essencial é a seguinte: a pessoa deve funcionar pelo menos 51% como fonte e sujeito do amor e não como objeto. Por isto deve aprender, discutir, observar os modelos humanos de amor, e não os modelos divinos. A pessoa deve se preocupar menos em perguntar para o outro se ele a ama e questionar para si própria se ela está amando. Assim, ela abre caminhos para que o amor se pronuncie e se manifeste espontaneamente.
JC - De que maneira o tripé amor-sexo-religião influencia a vida dos indivíduos? Joaquim Motta - É decisiva essa influência, pois, falando mais restritamente – uma vez que o livro fala do amor de modo amplo) - do amor erótico, do casal, a religião tenta ser um elo fundamental entre os pares, sugerindo uma ligação “abençoada”, eterna. Esta aliança religiosa não tem sustentado as relações pois, muitas vezes, pretende amarrar um casal que não se ama espontaneamente.
JC - O senhor fala em prazer real e mortal. As pessoas têm dificuldades em experimentá-lo? Por quê? Joaquim Motta - A nossa maior “traição divina” é exatamente nos iludir com a expectativa do Éden após a morte. Necessitamos construir o nosso paraíso agora, enquanto vivos, na Terra. Não será perfeito nem ideal, mas será um mundo amoroso, muito melhor. Se depois da morte, descobrirmos que também virá o Céu, melhor, beleza, será uma bela surpresa, um grande lucro afetivo. Como estaremos nos amando melhor, mais éticos e honestos, mereceremos automaticamente o ‘prêmio’...
JC - Qual é a diferença entre amor humano e amor divino? Joaquim Motta - O modelo “Deus é amor” ou aquele outro bordão “Deus é fiel” não servem. Uma maneira divina de amar é algo inatingível, desproporcional, perfeito e desumano. O homem, ainda que melhore muito o seu jeito de amar, estará sempre imperfeito. Não cabe seguirmos mais o tipo ‘divino’ de amor que a cultura religiosa nos impôs.
JC - Qual a melhor forma de vivenciar o amor humano? Joaquim Motta - Entre casais: tentar se relacionar com autenticidade, não prometendo o que não pode oferecer, cuidar sem ciúmes, dispor-se a promover o outro sem o prender, elogiando e criticando. Na boa relação, o par que está amando e é bem amado sente-se (pensando...) e pensa (sentindo...) assim: ‘sinto-me livre e bem acompanhado’.
JC - Como a traição e a religião interferem nas relações afetivas? Joaquim Motta - De várias maneiras: as verdadeiras traições implicam esquemas triangulares. Por exemplo, a pessoa acha que seu namorado estudou pouco e que ele não gosta de tocar no assunto. Ela não suporta quando ele diz coisas do tipo: “Eu se troquei de roupa!”. A moça não diz nada para ele, mas começa a se encontrar com um professor-doutor poliglota... Está fechada a grande atuação traidora: ela triangulou, ele não evoluiu e ela foi buscar em outro o que falta nele. Ao contrário, se ela diz a ele para estudar, vai junto matriculá-lo no vestibular, ele pára de falar a língua dos “manos”..., entra na faculdade e, mesmo assim, ela arruma um amante intelectual, é porque ela busca algo que falta em si própria e não nele. Aí, a moça não triangulou, “psicologicamente”, ela não traiu... Mas a religião dirá que sim.