Relações positivas com o ambiente e a atividade profissional podem influenciar a longevidade do trabalhador. É o que aponta estudo desenvolvido pela médica Karina Pavão Patrício, professora da Faculdade de Medicina (FM) da Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Botucatu.
Na pesquisa, desenvolvida como pré-requisito para conclusão de curso de pós-graduação na Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (USP), na Capital, sob a orientação da professora Helena Ribeiro, a pesquisadora Patrício argumentou que a degradação ambiental e a perda de papéis importantes exercidos pelas pessoas na aposentadoria são fatores que podem contribuir para a diminuição da expectativa de vida.
Nesse novo olhar sobre o envelhecimento, a médica resgatou a trajetória de um grupo de longevos (pessoas com mais de 60 anos) ex-trabalhadores da antiga Estrada de Ferro Sorocabana (EFS). Ela realizou entrevistas com 30 aposentados, selecionados na comunidade que hoje contabiliza aproximadamente 13 mil idosos em Botucatu.
As entrevistas constataram que esses profissionais nutriam uma forte ligação material e afetiva com a empresa e o seu ambiente de trabalho, cujas lembranças estão relacionadas a uma existência mais saudável. “A estrada de ferro teve um importante papel para o desenvolvimento de Botucatu, fator relevante para a qualidade de vida dessa geração de trabalhadores”, destaca a docente.
A relação da cidade com a ferrovia começou no final do século 19, quando o município era um ponto de passagem para as regiões cafeeiras no oeste paulista. De Sorocaba, visando a penetração das ferrovias pelo Interior, a EFS foi expandida em direção a Botucatu. Em torno da estação ferroviária, então, floresceu um rico centro comercial e cultural.
Naquele contexto, os empregados da ferrovia desfrutavam de um status superior à média dos demais trabalhadores. Além de prestígio, bons salários e estabilidade profissional e familiar, eles estavam em pleno vigor físico e mental. “Os ferroviários trabalhavam em um ambiente cordial e se sentiam importantes perante a sociedade, mas o trabalho era como qualquer outro”, destaca a médica.
Segundo o levantamento feito por Patrício, eles trabalhavam até 30 horas seguidas, de forma intensa, em constante contato com o perigo. Os trabalhadores ficavam expostos ao calor da fornalha e ao barulho das máquinas, condições que os deixavam estressados a ponto de até perderem o sono. “No entanto, a percepção de que eram importantes para a sociedade os ajudava a superar as dificuldades”, assinala a médica da FM. Empregados, eles se sentiam, então, respeitados no seu emprego. A estabilidade no trabalho proporcionava outras vantagens, como uma perspectiva de vida com menos incertezas. No armazém da ferrovia, obtinham alimentos para o sustento familiar e contavam com o atendimento médico-hospitalar de qualidade oferecido pelo Hospital Sorocabano.
Temática ambiental
Por meio da investigação teórica e da abordagem qualitativa das experiências dos idosos, a médica verificou a relação positiva entre percepção ambiental, qualidade de vida e longevidade. Segundo o estudo, isso fica evidente quando os entrevistados relatam o ambiente como sendo a “vida”, a “casa”, onde o cotidiano proporcionava vivências prazerosas. A pesquisadora assinala que, no seu dia-a-dia, os trabalhadores concebiam o ambiente como parte da existência. “As boas sensações provocadas pelo verde e pelas construções da ferrovia, então em pleno estado de conservação, são lembradas como fonte de vida”, afirma.
A médica assinala que uma lembrança comum entre os entrevistados era o bem-estar despertado pela natureza, enquanto o trem percorria seu percurso. “Ao se sentirem integrados à natureza, os ferroviários puderam usufruí-la plenamente”, acentua. Para a pesquisadora, quando o ambiente é visto como algo externo, como um mero cenário, não contribui para a saúde do indivíduo.
Abandono
A Estrada de Ferro Sorocabana (EFS) foi adquirida em 1971 pela Ferrovia Paulista S/A (Fepasa), de propriedade do governo paulista, privatizada na década de 1990 e, em seguida, desativada. A desativação foi um marco negativo na vida dos aposentados.
A destruição de um patrimônio que os trabalhadores ajudaram a construir representou uma perda significativa para os ex-ferroviários, associada, segundo a pesquisa da médica Karina Pavão Patrício, ao fim de uma era de prosperidade e ao início de um tempo de abandono.
Patrício destaca o suicídio de oito aposentados, em Botucatu, logo após a privatização e o sucateamento total da EFS. “A literatura mostra que a destituição do idoso de seus papéis sociais o faz duvidar de sua capacidade, levando-o à condição de dependente. Em conseqüência dessa constatação, vem a depressão e, às vezes, até a morte, como de fato ocorreu”, observa a pesquisadora, que é professora da Faculdade de Medicina (FM) da Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Botucatu.
Paralelamente, à medida que o tempo avançava, os aposentados também vivenciaram o aniquilamento de suas próprias forças. Hoje, eles não desfrutam de prestígio, o salário foi rebaixado, a saúde já não é a mesma e a morte é uma ameaça próxima.
A idealização do passado, assim, é uma das formas de sobrevivência dos aposentados. Para a docente, a memória da convivência em um meio ambiente harmônico, que favorecia as boas condições de saúde, mostrou-se como um mecanismo de defesa que garantiu a longevidade. “Apesar do envelhecimento e do abandono, em grande parte, a saúde dos longevos foi resguardada pela força das lembranças positivas”, diz Patrício. “Resta-lhes a memória, que os mantém vivos.” No caso do grupo pesquisado, o estudo sugere, como alternativa para a preservação ou restituição da saúde física e mental dos ex-ferroviários, a criação de um museu interativo, administrado por eles próprios. De acordo com a pesquisadora, uma “Estação Museu-Escola” possibilitaria o resgate da história da ferrovia e das experiências desses cidadãos.
Para ela, a concretização dessa sugestão poderia representar a reabilitação social dos aposentados e a materialização de suas memórias. “Seria um importante legado para as gerações futuras, uma vez que os documentos sobre a ferrovia foram destruídos pela falta de valorização do patrimônio histórico-cultural”, ressalta. (Jornal da Unesp)