10 de julho de 2026
Saúde

Dinâmica pessoal influencia crianças a trocarem as letras

Manuel Alves Filho
| Tempo de leitura: 5 min

Assim como o personagem Cebolinha das histórias em quadrinhos, criado em 1960 pelo desenhista Maurício de Sousa, muitas crianças falam “plaia” em vez de “praia”. Tradicionalmente, tanto especialistas quanto leigos consideram que elas trocam a letra “R” pela “L” no momento de pronunciar determinadas palavras. Puro equívoco, segundo duas recentes pesquisas desenvolvidas por integrantes do Laboratório de Fonética e Psicolingüística (Lafape) do Instituto de Estudos da Linguagem (IEL) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). De acordo com os estudos, o que ocorre nesses casos é que o menino ou a menina comete uma pequena imprecisão no momento da verbalização. “Por meio de análises acústicas, nós comprovamos que quando a criança diz ‘tapo’ no lugar de ‘sapo’, esse ‘T’ é diferente daquele empregado na palavra ‘tapa’. Ou seja, a criança acha que está falando certo, pois ela de fato faz a distinção. Nossos ouvidos é que não percebem”, explica a coordenadora do Lafape, professora Eleonora Cavalcante Albano. As pesquisas foram conduzidas pelas fonoaudiólogas Maria Cláudia Camargo de Freitas e Luciana Lessa Rodrigues, quando ambas faziam o mestrado no IEL – atualmente estão no programa de doutorado. Paralelamente aos estudos, cada um feito com dois alunos de uma escola municipal de Campinas, elas também realizaram uma intervenção clínica para corrigir o problema de fala das crianças. Graças à abordagem adotada, elas puderam identificar com precisão o que estava ocorrendo e, conseqüentemente, promover uma intervenção adequada aos casos. “Em menos de quatro meses, as crianças já estavam falando conforme o padrão visto como normal”, conta Freitas. De acordo com a professora Albano, existe uma tendência relativamente generalizada entre os profissionais que trabalham com a fala de entender o fonema como um elemento estático. Por causa disso, boa parte deles costuma classificar a criança que pronuncia “caia” em vez de “cara” como uma “troca-letras”. No entanto, uma concepção mais recente vê o fonema como um evento dinâmico. A docente do IEL lembra que o tempo é constitutivo e influencia tudo o que ocorre durante a fala. “Existe uma coordenação de acontecimentos, cuja ordem nem sempre é linear. Algumas coisas ocorrem simultaneamente, enquanto outras seguem uma seqüência. Para que as pessoas entendam melhor, tome-se como exemplo a comunicação gestual. O gesto se faz no tempo. A fala também. A fala nada mais é do que um gesto articulatório”, esclarece.

É a partir dessa perspectiva dinâmica dos sons da fala que os estudos foram desenvolvidos. A técnica da análise acústica foi empregada, informa Rodrigues, porque ela permite registrar detalhes do processo de produção da fala que não poderiam ser captados pelo ouvido humano. Assim, as crianças que participaram dos estudos eram periodicamente levadas para uma cabine com isolamento acústico. Lá, elas pronunciavam palavras à medida que placas contendo desenhos eram exibidas. Todas as sessões foram gravadas por um equipamento de alta precisão. Em seguida, a gravação era analisada por meio de um programa de computador.

“O que nós identificamos é que as crianças não trocavam os fonemas, como comumente se crê. Quando falavam, elas faziam distinções entre eles. Para elas, ‘caia’ em referência à palavra ‘cara’ é diferente do ‘aia’ presente na palavra ‘saia’. Nossos ouvidos é que não são capazes de perceber essa sutileza. Simplificando, não se trata de um distúrbio articulatório ou de um desvio fonológico, como o problema é tradicionalmente diagnosticado. É apenas uma imprecisão do gesto articulatório correspondente. Em termos de fala, essas crianças têm somente uma realização que fica aquém do que é considerado ótimo”, analisa a professora Albano. Essa concepção é importante, de acordo com as pesquisadoras do Lafape, porque permite um diagnóstico mais preciso, possibilitando conseqüentemente a adoção de terapias mais ajustadas ao problema de cada criança. “A abordagem passa a ser mais simples e rápida. Não é preciso, por exemplo, submeter a criança a exercícios para o fortalecimento da língua”, compara Maria Cláudia. Segundo Rodrigues, quando esse tipo de pronúncia acontece aos 2 ou 3 anos de idade, normalmente não acarreta maiores conseqüências. A tendência é que o menino ou menina passe a falar segundo o padrão tido como normal sozinha. No entanto, quando a imprecisão perdura até os 5 ou 6 anos, aí, sim, pode trazer algumas implicações. Nessa fase, destacam as pesquisadoras, a criança normalmente está na escola e pode virar objeto de brincadeiras dos amiguinhos ou de repreensão por parte de professores. Muitas são apelidadas de Cebolinha ou Hortelino Troca-Letras, o personagem dos Looney Tunes. “Ainda não sabemos a razão de algumas crianças terem mais dificuldade em superar essa pequena dificuldade de coordenação. Alguns indícios apontam para a existência de fatores de ordem emocional, mas não há nada conclusivo. O importante, porém, é que os nossos estudos estão trazendo novas contribuições para o entendimento e o tratamento desse problema que tende a ser magnificado por outras perspectivas”, concluiu a professora Albano.

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Brinquedo com som alto pode causar perda da audição

Pesquisa feita pelo Hospital de Clínicas de Porto Alegre (RS) revela que brinquedos que emitem sons e são vendidos em camelôs podem causar perda auditiva em crianças de zero a 3 anos. A fonoaudióloga Pricila Sleifer analisou 73 brinquedos. O estudo concluiu que 88,7% deles emitiam um barulho acima do permitido pela lei, que estabelece o limite de 85 decibéis. A pesquisadora comprou os brinquedos no mercado informal. Foram estudados carrinhos de polícia e de bombeiros, instrumentos musicais eletrônicos, entre outros produtos. Ela diz que escolheu como fonte de estudo o mercado informal porque a maioria dos brinquedos sonoros vendidos em lojas tem selo de garantia de qualidade do Instituto Nacional de Metrologia, Normalização e Qualidade Industrial (Inmetro) e da Associação Brasileira dos Fabricantes de Brinquedos (Abrinq). Segundo Sleifer, isso não ocorre com os produtos comercializados por camelôs. No estudo, concluído em abril, um carrinho de polícia chegou a registrar 123,6 decibéis - volume mais alto que o de uma motosserra (100 decibéis) ou de uma britadeira (110 decibéis).

“Como esses brinquedos são destinados a crianças muito pequenas, podem comprometer a audição e também a fala. Os déficits auditivos geram alterações irreversíveis, que podem prejudicar o processo de aprendizado como um todo’’, afirma a pesquisadora. Para ela, na hora de adquirir os produtos, os pais devem testá-los, ligando os equipamentos e percebendo se o som é muito alto. “Deve prevalecer o bom senso dos pais no momento da compra.’’ (Simone Iglesias/Folhapress)