09 de julho de 2026
Polícia

Bala foi tirada do capacete, diz laudo

Luciana La Fortezza
| Tempo de leitura: 5 min

A bala que atingiu a cabeça do mecânico Jorge Luiz Lourenço, 22 anos, durante perseguição policial há quase 2 meses, foi retirada do capacete por ação humana. Conforme apurou a reportagem, a informação consta em laudo que avaliou o equipamento de segurança do motociclista. Sem o projétil, torna-se impossível apontar com precisão de qual arma ele partiu. Seu desaparecimento garantiria aos três policiais envolvidos no caso o benefício da dúvida, sempre pró réu.

De acordo com a análise, o rapaz foi atingido com um disparo só, retilíneo, que transfixou a parede do capacete, o isopor, penetrou na região posterior da cabeça, transfixou o cérebro, saiu na região frontal direita e parou ao bater na outra face do capacete. Como não se sabe de qual arma a bala partiu, os três policiais - Renato Valderramas de Favari, Ricardo Antonio do Amaral e Lincoln Cesar Cares - foram indiciados por homicídio, em inquérito policial militar.

Resta saber agora se a defesa deles trabalhará pela co-autoria do homicídio ou se o autor do tiro vai se declarar ou será apontado pelos outros dois. Neste caso, eles responderiam apenas por ter forjado o local do crime, cuja pena seria menor. Já a situação de quem responderá por homicídio é muito mais grave até porque existe o agravante da morte ter sido cometida por trás, impossibilitando a defesa da vítima.

Até o final desta semana, o inquérito policial militar será concluído. O caso pode culminar com a expulsão, demissão ou punição dos policiais ou ainda no seu arquivamento. Porém, consta no relatório fortes indícios de forja de provas no local do ocorrido. Conforme o JC já havia publicado, o laudo residuográfico de chumbo das mãos do mecânico e dos policiais já apontava para a mesma direção. Enquanto nas mãos do trio da equipe em patrulhamento foram encontrados micropontos de chumbo (visíveis com o auxílio de lupa), na mão direita do mecânico (que era canhoto) foram observadas duas grandes áreas de chumbo visíveis a olho nu.

O exame aponta presença atípica de chumbo. Ao invés de micropontos esparsos, as concentrações eram lineares e teriam sido esfregadas. Diante da situação, tanto a PM quanto o Ministério Público pediram outras informações quanto ao exame residuográfico. Querem saber se a concentração de chumbo pode ser decorrente da profissão do rapaz. Antes da ocorrência, ele poderia ter manuseado uma ferramenta com chumbo.

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Testemunha contradiz versão dada pelos policiais envolvidos no caso

A versão dos três policiais militares envolvidos na morte do mecânico Jorge Luiz Lourenço, 22 anos, foi colocada em cheque por uma testemunha presencial. Após um mês e meio da ocorrência, ela enfrentou o medo e, sem se identificar, relatou o que viu no dia em que o rapaz foi atingido na cabeça por um projétil disparado pela equipe em patrulhamento. O estampido de três tiros em seqüência lhe despertaram a curiosidade.

Diante da situação, ela subiu num muro e passou a acompanhar a ocorrência, acompanhada por uma segunda pessoa. Viu quando uma viatura da Polícia Militar (PM) parou na avenida Rosa Malandrino Mondelli e três policiais desembarcaram. “Dois saíram rápido (do carro). O motorista, mais devagar”, comenta. Os três seguiram pela mesma trilha do terreno, onde o mecânico caiu após ser atingido por trás.

Já segundo a versão dos três policiais, que coincidiu durante a reconstituição do caso, nas imediações da quadra 10 da via, perderam contato visual com o piloto. Eles afirmaram que reduziram a velocidade da viatura e perceberam a existência de uma viela de terra, à direita. A 30 metros da entrada, disseram que dois policiais desembarcaram e seguiram mata a dentro, separadamente. Seguiram em direção onde acreditavam estar a moto.

O outro policial, que conduzia o veículo, disse que também seguiu em direção ao terreno de mata nativa para auxiliar os companheiros. Então, houve alguns disparos de onde o motorista da motocicleta estaria. No entanto, a testemunha garante que, depois que os policiais entraram no terreno, nenhum outro tiro foi dado. Portanto, ela não descarta a possibilidade do rapaz ter sido atingido ainda quando trafegava pela avenida.

Lampejos

Em nenhum momento, a testemunha viu o motociclista, nem a moto vermelha que ele dirigia. Mas o relato dela, põe em xeque a informação de que os três policiais foram guiados pelos lampejos da arma de fogo do Jorge e, só então, dois deles teriam revidado.

Também não seria verdade que apenas dois deles seguiram para o local onde o rapaz estava caído. Ela garante que os três policias percorreram o mesmo trajeto.

Mas segundo a versão dos policiais, eles entraram no terreno por locais diferentes. Tanto que, percebendo o ferimento do rapaz, gritaram ao terceiro policial para que aproximasse a viatura e providenciasse socorro imediato. Porém, de acordo com a testemunha, nenhuma viatura entrou no terreno. Só teria avançado na viela um veículo cor prata. Ele chegou quase que simultaneamente a outras viaturas policias.

Todas ficaram estacionadas na avenida. Depois, uma viatura seguiu no sentido a ponte Mary Dota/Distrito Industrial. Na seqüência, o automóvel prata partiu rumo à avenida Nuno de Assis. Foi acompanhado por outras viaturas.

A testemunha chegou a pensar que era o veículo prata o alvo da PM. Com a saída dele do local, acreditou ter presenciado o encerramento do caso.

Mesmo assim, permaneceu pelas imediações do muro. Um tempo depois, acompanhou ainda o retorno das viaturas. O relato dela pode ser ouvido pelo Ministério Público. (LLF)