O barulho das locomotivas e a imagem delas ainda estão na memória do bauruense Nelson Justino, 56 anos. Quando era criança, ele acordava logo cedo para acompanhar o pai que trabalhava na antiga Ferrovia Paulista S/A (Fepasa), em Bauru. A paixão pelo meio de transporte o acompanhou por toda vida e definiu sua profissão: artesão. Justino confecciona locomotivas, ônibus, caminhões e tudo que lembre transporte, feitos em tamanho reduzido e com muita arte.
Com madeira, ferro e outros materiais, como o PVC, ele dá vida às lembranças da infância. Desde pequeno ele tem o sonho de viajar pelo mundo e conhecer vários países, principalmente os Estados Unidos. Enquanto não realiza este desejo, constrói peças de madeira e viaja pelo pensamento.
O trabalho do artesão é minucioso. A perfeição de seu trabalho é que deixa as pessoas curiosas. O mais curioso é que ele nunca freqüentou um curso. É auto-didata e tudo que faz é fruto de sua criação. Desde o entalhe da madeira até a confecção das peças - como as rodas, janelas e assentos - são feitos por ele mesmo. “Ele é perfeccionista em tudo. Não gosta de fazer as coisas pela metade ou mal feito”, revela a esposa, Aparecida Fortunato Justino, 52 anos.
Por pouco o dom de Justino, como ele mesmo define, não ficou apenas como hobby. “Eu trabalhei por 20 anos como pintor de automóveis, mas sempre me dediquei ao artesanato, inclusive depois que saí do emprego. Um dia, meu filho me deu a dica. Ele disse para eu parar de guardar as peças em casa e começar a vendê-las”, conta. E foi justamente isso que ele fez. Há aproximadamente quatro anos, produz faz peças sob encomenda.
A maioria dos clientes é de adultos. “Muitos pais ou avós vêm comprar um presente para seus filhos e netos, mas acabam levando para eles mesmos”, confessa. O artesão revela como faz as peças. Depois de cortar a madeira, ele lixa as bordas para não deixar imperfeições. Depois, cola peça por peça e deixa secar. Em seguida, passa massa acrílica para alisar ainda mais o material. Meia hora depois, ele começa o trabalho de pintura. Por último, cola adesivos feitos por ele mesmo. Todo o trabalho dura em média 9 horas.
Coleção
Na sua coleção pessoal, as locomotivas tipo maria-fumaça têm lugar especial. “Tenho vontade de construir uma ferrovia inteira, inclusive com os trilhos, para fazer as locomotivas andarem. Em volta, vai ter casas e peças que lembram uma cidade”, imagina o artesão.
O filho Gabriel Felipe Justino, 22 anos, estudante de psicologia, orgulha-se do trabalho do pai. “As pessoas precisam dar mais valor à cultura e ao artesanato. Hoje, o que vemos é a cultura nos museus e o crime nas ruas”, lastima.
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Escritório
Além das peças de artesanato, Nelson Justino também criou as ferramentas de seu trabalho. No quintal de sua casa, no Parque Vista Alegre, ele guarda todo o aparato de seu ofício. Lá funciona o seu “escritório”. “Com uma máquina de costura e uma furadeira, criei uma ferramenta para cortar a madeira”, explica.
A caixa de direção de um Corcel antigo virou máquina para dobrar o ferro. “Assim fica muito mais fácil, porque as peças saem do jeito que eu imagino”, conta o artesão.
Outro detalhe é que tudo fica guardado organizadamente em seu lugar. Na oficina, ele confecciona seus sonhos e os dos outros. Quando questionado sobre o motivo de querer conhecer os Estados Unidos, o artesão fica pensativo e responde: “Quero aprender mais coisas nos Estados Unidos e trazer conhecimento para o Brasil”, diz.