10 de julho de 2026
Nacional

Martinho promove belo sincretismo musical

Por Luiz Fernando Vianna | Folhapress
| Tempo de leitura: 2 min

Duas belas características que Martinho da Vila mantém em quatro décadas de carreira se confirmam no novo CD: seus discos nunca são amontoados de faixas, mas têm uma idéia que as sustenta; e seu samba prega o encontro de gêneros, jamais a segregação. “Martinho da Vila, do Brasil e do Mundo” se aproxima de “Maravilha de Cenário” (1975), “Batuqueiro” (1986) e outros álbuns em que o artista procurou reunir vários Brasis.

E também está ligado aos recentes “Conexões” (2003) e “Brasilatinidade” (2005), por causa da fusão do samba com ritmos e artistas além-fronteiras, num esforço de fortalecimento de sua carreira internacional. Bons exemplos da busca de uma síntese entre os dois caminhos são “O Amor da Gente” e “Nossos Contrastes”.

A primeira é uma parceria de Martinho com o craque do samba-de-roda Roque Ferreira e tem um trecho rap com participação de Negra Li. A segunda é parceria com o mangueirense Nelson Sargento, levada aqui em clima reggae, num dueto com Toni Garrido. Mesmo um samba-canção clássico como “Copacabana” (Braguinha/Alberto Ribeiro) ganha um toque internacional ao receber contornos de fox. O dueto com a norte-americana Madeleine Peyroux soa um tanto postiço. “Madalena do Jucu” - canto popular adaptado por Martinho e um de seus grandes sucessos - tem seu andamento muito ralentado para virar “Madeleine, I Love You” e perde sua força.

A outra canja estrangeira é mais interessante, pois é coerente que o argentino Fito Paez recite a versão em espanhol da letra de “Por Ti, América”, samba-enredo com que Martinho e Luiz Carlos da Vila perderam na Unidos de Vila Isabel no Carnaval de 2006 -e a escola foi campeã com o vencedor. A gravação é uma doce vingança do compositor, pois há uma regra não-escrita que impede sambas derrotados em escolas de serem gravados.

Mas Martinho passa por cima disso, assim como sempre deu a volta em qualquer preconceito. No CD, há tambores baianos, frevo, jongo, trocas com Cuba, Angola e Portugal, e uma convidada que anda esquecida, Eliana Pittman. O título do disco se justifica plenamente.