Em apenas duas décadas, a telecomunicação teve desenvolvimento sem precedentes. Se durante a década de 1980 telefone fixo era considerado privilégio de poucos, hoje é difícil encontrar uma casa que não conte com o aparelho. Mais difícil ainda é achar uma pessoa que não tenha celular, cujo número ultrapassou o total de telefones fixos no País ainda em 2003. No entanto, nem mesmo toda essa facilidade à disposição do brasileiro decretou a “aposentadoria” dos antigos orelhões.
Estima-se que em todo o Estado de São Paulo existam cerca de 22,5 milhões de celulares e que 80% deles sejam do sistema pré-pago. De posse desse número, a Telefônica anunciou, no final do ano passado, que iria reduzir o número de orelhões em Bauru e outras cidades do Interior em virtude da expansão móvel. O argumento pode ser contestado, já que em caminhadas pela rua não é raro encontrar pessoas usando celulares como agenda telefônica e efetuando ligação através do sistema público de comunicação.
Apesar de ter ficado quase um mês fora de funcionamento, o orelhão em frente ao minimercado de José Luiz Garcia, na Bela Vista, funciona como um “porto seguro” para esse tipo de usuário. “Muitas vezes a pessoa usa (o celular) só como agenda”, revela o comerciante que, do ponto onde costuma atender seus clientes, pode acompanhar a movimentação no telefone público localizado na esquina.
Todas as segundas-feiras Garcia precisa repor seu estoque de cartões telefônicos. Apesar de também vender recarga para celulares das três maiores operadoras do País, ele afirma que o comércio desse item é acentuadamente menor se comparado à procura pelos créditos para telefone público. “Vendo uma média de 40 cartões por semana. Cerca de 30 são de 20 unidades, cinco de 40 e cinco de 50”, diz. “Bem mais do que recarga para celular”, completa, sem precisar a proporção.
O comerciante acredita que a utilização de orelhões poderia ser maior ainda nas imediações do seu estabelecimento. “Não aumenta mais porque está sempre quebrado. Tem gente que vem aqui (no mercado) e comenta que passou por três ou quatro orelhões e não conseguiu ligar”, revela.
No Parque São Geraldo, o orelhão também não perde a popularidade. Braulio dos Santos Rosa, proprietário de uma padaria, afirma comercializar em média 60 cartões semanalmente. “É um consumo constante. Toda terça-feira, quando o representante nos visita, compro essa quantia porque é exatamente o giro da semana”, afirma.
Pela experiência, ele acredita que a maioria dos consumidores utiliza o orelhão para fazer ligações de longa distância, o DDD. “Pelo que eu vejo, parece que quem compra mais é aquela pessoa que tem parente longe, geralmente em outro Estado, como o Nordeste”, conta.
Adepta do orelhão
Contrariando essa tendência, a desempregada Fabiana Paula Tavares, de 32 anos, utiliza o orelhão também para fazer ligações locais. Ela já teve dois celulares pré-pagos e um fixo, mas desistiu de usá-los porque considerava o consumo muito alto. “O de recarga não compensa porque você tem que comprar cartão sempre e a ligação é muito cara. O outro (com conta fixa) você tem que pagar R$ 40,00 por mês. Um cartão (de orelhão) de 50 unidades custa R$ 5,80 mas eu chego a falar 2 minutos por unidade”, afirma.
Ela também não têm telefone fixo em sua casa porque não considera justo pagar taxa de manutenção mensal para ter direito ao serviço. Por isso, em média três vezes por semana caminha quatro quadras, de sua residência até o orelhão mais próximo, para efetuar ligações. “A gente fica com um pouco de preguiça, mas quando tem que ligar, não tem jeito”, revela a mulher, que mora com o marido e três filhos. Eles também usam orelhão.