Se antes a dor crônica era sintoma de alguma patologia, agora passou a ser a própria doença. Segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS), este problema afeta 30% da população mundial. E estima-se que aproximadamente 50 milhões de brasileiros têm algum tipo de dor crônica atualmente. O número alarmante chama a atenção de autoridades e especialistas no assunto, os quais realizam ações para tentar diminuir a evolução deste quadro. Uma delas é encabeçada pela Sociedade Brasileira de Estudos da Dor (SBED).
O órgão criou a Câmara Técnica de Dor e Cuidados Paliativos no final do ano passado e iniciou uma campanha junto ao Ministério da Saúde com o objetivo de estabelecer políticas públicas para o tratamento da dor, principalmente a dor crônica, aos pacientes que dependem do Sistema Único de Saúde (SUS) e auxiliar os profissionais de saúde com recursos técnicos que ajudem no tratamento da enfermidade, explica o presidente da SBED, o médico anestesista e professor de anestesia na Faculdade de Medicina de Goiânia Onofre Alves Neto. “Estamos envidando muitos esforços no sentido de sensibilizar os técnicos e políticos para a importância de se ajudar pessoas a ter, pelo menos, o mínimo de medicamentos para aliviar a dor crônica”, diz.
Segundo a International Association for the Study of Pain (IASP – Associação Internacional para Estudos da Dor), a dor crônica persiste por mais de três meses e que incomoda o paciente, trazendo vários transtornos além da dor, como depressão, irritabilidade e dificuldades de convivência. Neto aponta que entre as dores crônicas mais freqüentes se destacam a cefaléia, ou dor de cabeça, a qual se manifesta de várias maneiras, como enxaqueca ou cefaléia crônica diária; lombalgia ou dor nas costas; dor músculo-esquelética, que atinge principalmente as pernas e podem ser motivadas por problemas vasculares, musculares ou tendinosos; além da dor do câncer. “O câncer cursa com dor de moderada a severa em 85% das vezes, na sua fase final”, detalha.
Segundo Neto, existem dois tipos de dor: a aguda, que é a dor do infarto, de apendicite, pós-operatória, de dente. “É uma dor que aparece de repente e tem uma função importante para o organismo. Ela avisa que alguma coisa está errada e assim se tenta fazer o diagnóstico para tratara a causa da dor”, esclarece. Já a dor crônica não tem a função de “avisar” e traz, consigo, um grande sofrimento, desespero e, principalmente, uma sensação de abandono porque, na maioria das vezes, quando se trata de dor crônica já não se consegue “retirar a causa”, observa ele. “A dor já está estabelecida na vida do paciente, com todas as conseqüências que ela traz.”
A cabeleireira Loidir Ferreira Rodrigues, 64 anos, sofre de dor crônica nos pés e na região lombar e nervo ciático. “Tenho tanta dor que troco de sapato o dia inteiro, às vezes até a meia dói. Eu ando muito e fico bastante tempo em pé, talvez isto seja um agravante”, diz. Para aliviar o problema, ela passa pomadas e faz escalda-pés. “Mas é só um alívio, não resolve”, lamenta.
Origem
As causas de dor crônica são multivariadas, mas basicamente existem três delas, aponta Patrick Stump, fisiatra do Instituto Lauro de Souza Lima e responsável pelo ambulatório de Dor do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP). A primeira delas é a dor causada por um trauma ou processo inflamatório que libera substâncias que deflagraram a dor. “Quando entra um estrepe na ponta do dedo, a pessoa sente uma dor aguda, mas quando ele não é retirado, infla e o simples ato de dobrar o polegar passa a ser doloroso.”
Outra forma é a dor chamada neuropática, em que o nervo que deveria só carrear a dor passa a desencadear a dor espontaneamente. Isto pode ocorrer tanto no sistema nervosos periférico ou na polineuraugia diabética. “Em 50% da população com diabetes, após 15 anos, 30% delas têm dor. São dores que queimam e ardem. Outro exemplo é a hanseníase, que também podem ter dor neuropática.”
O terceiro tipo de dor é mais raro. Classificada como psicogênica, é modular ao sofrimento do paciente e gerada por alguma alteração psicológica. “Elas são geradas por uma doença da psique, como depressão. Não é a psique que gera a dor. Ocorre o impulso doloroso, mas o sofrimento é modulado pelo psicológico”, aponta o médico.
De acordo com Stump, os sintomas da dor crônica estão associados a estados de ansiedade e depressão e distúrbios do sono. “Os últimos estudos mostram que 82% das pessoas não tem sono restaurador”, diz. Neto destaca que os sinais da dor crônica dependem do tipo e do local da dor. “Uma dor crônica como cefaléia irá manifestar de várias maneiras, mas principalmente com dor de cabeça na fronte e ao redor dos olhos (como na enxaqueca), outras vezes na cabeça toda ou somente na nuca. Já a lombalgia se manifesta tanto na parte de baixo das costas (nádegas e nos lados, quanto também na região do tórax, ombros e braços.”
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Tratamento e prevenção
Existem inúmeras maneiras de se tratar uma dor crônica, explica o médico anestesista e professor de anestesia na Faculdade de Medicina de Goiânia Onofre Alves Neto, presidente da Sociedade Brasileira de Estudos da Dor (SBED). A melhor maneira é por meio de um trabalho multidisciplinar, envolvendo médico, psicólogo, fisioterapeuta ou fisiatra, assistente social.
Contudo, é mais fácil prevenir o aparecimento da dor crônica do que tratá-la, ressalta Patrick Stump, fisiatra do Instituto Lauro de Souza Lima e responsável pelo ambulatório de dor do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP). Bons hábitos de vida, como alimentação saudável e prática regular de exercícios físicos, além de evitar o fumo e bebidas alcóolicas são grandes armas na prevenção do problema.
“O mais importante é tratar bem uma dor aguda, ou seja, se pessoa tem uma dor forte, deve ter muito cuidado em tratá-la para não correr o risco do seu organismo interpretar a dor não adequadamente”, reforça Stump.
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Conseqüências
A dor crônica é de alta prevalência na população, observa o médico anestesista e professor de anestesia na Faculdade de Medicina de Goiânia Onofre Alves Neto, presidente da Sociedade Brasileira de Estudos da Dor (SBED). Suas conseqüências são muitas e vão desde fatores econômicos - como falta ao trabalho, aposentadoria precoce ou dependência econômica – como aspectos emocionais.
“Cerca de 80% dos pacientes têm algum tipo de depressão associada com grande sofrimento, desespero, desamparo e sensação de abandono”, diz. Isto sem citar o grande impacto para quem cuida do paciente com dor crônica. “Há necessidade de atenção e, principalmente, custos altos do tratamento”, explica.
Segundo Patrick Stump, fisiatra do Instituto Lauro de Souza Lima e responsável pelo ambulatório de dor do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), a principal conseqüência da dor crônica é a alteração na qualidade de vida.
“A dor aguda é um alarme, que avisa que algo não está bem. A dor crônica é uma doença por si só.” A dor crônica pode atingir qualquer região do corpo, inclusive em áreas não existentes, aponta Stump. “Ela é conhecida como dor fantasma, que é neuropática. O paciente, por exemplo, sofre um acidente e precisa amputar a mão e mesmo assim, continua com dor na mão e isto não é dor psicológica”, conclui.