Todo o esgoto produzido na cidade vai direto para o rio Bauru. São cerca de 1.200 litros de impurezas lançadas sem nenhum tipo de tratamento a cada segundo. De acordo com o Departamento de Água e Esgoto (DAE), essa é a razão do cheiro desagradável exalado em determinados pontos do rio.
Com a implantação do sistema de tratamento de esgoto, que já teve início e deverá ser concluído em 2013, o odor deixará de ser a marca registrada do rio que leva o nome da cidade e praticamente divide Bauru ao meio.
No momento, a prioridade do DAE, segundo a assessoria, é a instalação dos interceptores que irão levar o esgoto para fora da cidade. Só esse serviço consumirá cerca de R$ 25 milhões do município. Assim que os interceptores estiverem prontos, a prioridade passará a ser a construção da Estação de Tratamento de Esgoto (ETE). Ao invés do esgoto ser lançado “in natura” no rio Bauru, ele será tratado é só depois despachado em direção ao rio Tietê.
Na semana passada, o DAE, em parceria com a Universidade Estadual Paulista (Unesp), começou a fazer análise da água do rio Bauru. O trabalho será repetido a cada 15 dias. Além da água do rio, serão coletadas amostras dos seus afluentes. Ao todo, serão 18 pontos de coletas.
O objetivo dessa iniciativa, segundo o DAE, é verificar se o rio está se recuperando e em que ritmo essa recuperação está ocorrendo. Em alguns córregos onde foram instalados os interceptores já deu para notar a diferença. Segundo a química Giselda Passos Giafferis, ver peixes nadando nesses trechos não é mais história de pescador, mas uma realidade.
Giselda, que trabalha no DAE, também mostrou-se preocupada com a queda na vazão de alguns córregos. Na opinião dela, será preciso um trabalho para recuperar a mata ciliar e, desta forma, evitar o desaparecimento de afluentes do rio Bauru. Uma vez concretizado o trabalho de despoluição, o rio Bauru poderá se transformar em uma fonte de lazer para os moradores. Segundo Giselda, além da pesca, será possível nadar nos trechos um pouco mais profundos, algo impensável nos dias atuais.
Aliás, a profundidade do rio Bauru é um detalhe à parte. De acordo com o biólogo Ivan de Marchi, coordenador do programa de biodiversidade do Instituto Ambiental Vidágua, é possível percorrer todo o trecho urbano do rio Bauru caminhando dentro dele. “O máximo de profundidade que ele chega é até a cintura”, diz. Depois que o rio deixa a cidade e parte em direção ao Tietê, ganha uma vazão um pouco maior, chegando a 3 metros de profundidade e 10 metros de largura, segundo Ivan.
Depoimentos de pessoas que conheceram o rio Bauru quando ele ainda era limpo, levam à conclusão de que o rio sempre foi raso. É o que revela o historiador Gabriel Pelegrina, 85 anos, que nasceu em Bauru. Ele conta que tinha o costume de entrar no rio para tomar banho e chegou a pescar algumas vezes. Isso tudo por volta de 1930, quando ainda era criança. Mesmo naquela época, o rio era estreito e pouco profundo, segundo o historiador.
Ele lembra também que o rio serviu como uma espécie de divisor social do município. Os terrenos que ficavam à margem esquerda do rio eram menos valorizados que os da margem direita (em direção ao Centro da cidade). Com a derrocada do café em 1929, devido a uma crise econômica mundial, muitos trabalhadores rurais foram dispensados da lavoura.
Sem serviço no campo, eles mudaram para a cidade em busca de trabalho. Sem dinheiro para comprar um terreno ou uma casa na margem direita do rio, onde a cidade já possuía certa infra-estrutura, os novos moradores começaram a ocupar a margem esquerda, ainda carente dos serviços básicos.