08 de julho de 2026
Geral

Drogas e roubo lotam presídios de jovens

Daiana Dalfito
| Tempo de leitura: 5 min

Muitos traços das histórias relatadas a seguir se repetem, mas diferentes são os motivos que levam pessoas comuns a cometer um ato extremo como roubar. Alguns, em sua maioria jovens, acabam por praticar um assalto devido ao uso abusivo de drogas pesadas ou por se verem envolvidos na dinâmica do tráfico. Outros assaltam por “necessidade financeira” ou desejo material. O fato é que em 48,4% dos processos de homens julgados, condenados e presos no Estado a causa é o roubo, sendo a maior parte deles cometidos por jovens.

Dos mais de 92 mil homens encarcerados atualmente, 44.530 respondem por roubo (art. 157 do Código Penal), segundo a última pesquisa do Departamento Penitenciário Nacional (Depen). O número contradiz o que o senso comum indica, já que os crimes que mais preocupam a sociedade como o tráfico de drogas e os homicídios ocupam o 3º e 4º lugares nas pesquisas. Porém, é fato que pelo menos entre os jovens, o ato de roubar ou mesmo furtar está bastante ligado ao consumo ou tráfico de entorpecentes.

“Cauê” (nome fictício), 26 anos, nunca foi preso ou fichado, mas roubou. O motivo: crack. Garoto de classe média de uma cidade próxima a Bauru, ele chegou a cursar fisioterapia e trabalhava, mas pouco a pouco deixou a “vida bandida” o levar. Atualmente, está em recuperação.

Ele experimentou maconha aos 15 anos por curiosidade, aos 18 cheirava cocaína e aos 22 tornou-se usuário de crack. “Não conseguia mais ‘ficar de cara’, perdi meu próprio domínio e precisava sustentar o vício. Comecei a furtar e roubar”, afirma.

O jovem ainda furtou o próprio pai e pessoas próximas, como vizinhos. Pediu ajuda e se internou para recuperação quando se viu cercado por pessoas ligadas ao Primeiro Comando da Capital (PCC). “Eu não era do PCC, mas meus colegas eram e queriam ‘me batizar’”, conta.

O roubo é o crime que mais leva pessoas para a prisão. Se somados o furtos, o número de condenações chega a 62.318, ou seja, 67,7% do total. Essa situação é constatada desde o censo penitenciário de 2003. Na época, 47.707 homens respondiam por seus delitos em regime fechado no Estado de São Paulo e o crime mais punido já era o roubo, representando 47% dos processos julgados.

“Enéas” (nome fictício), 39 anos, foi condenado por latrocínio (roubo seguido de morte), considerado crime hediondo. Pobre, jovem e sem estudo, ele saiu do Piauí com destino a São Bernardo do Campo para trabalhar. Em 1989, já casado e com um filho, mudou-se com a família para Botucatu, onde um de seus irmãos morava.

Alguns anos depois, já com seu segundo filho, um problema na família fez com que a mulher retornasse ao Nordeste. Ela levou o filho maior e deixou o bebê sob os cuidados do pai. Enéas perdeu o emprego. “Consegui fazer alguns bicos, mas não encontrava emprego. Um dia, alguns homens que jogavam futebol comigo no time do bairro se ofereceram para ajudar. Me emprestaram dinheiro.”

Mas cobraram. Enéas fazia um bico dando manutenção em um pequeno hotel de Botucatu. “Os homens queriam roubar dinheiro e jóias de um cofre e me chamaram”, contou. Enéas concordou, mas impôs como condição que tomaria conta do idoso, dono do hotel, durante o assalto. “Eu queria ter certeza que nada ia acontecer. Imobilizei a pessoa, ele se assustou e teve uma parada cardíaca”, concluiu.

Os ladrões fugiram sem nada e deixaram para trás um homem desfalecido. “Corri para casa, coloquei algumas coisas em cima da bicicleta, peguei meu filho e pedalei de Botucatu até São Bernardo. Vendi algumas coisas e voltei ao Piauí.” A história poderia ter terminado, mas Enéas voltou ao Interior de São Paulo, novamente fugindo da fome.

“Seguíamos para o Rio de Janeiro quando uma pessoa me parou e nos ofereceu ajuda. Eu soube o que deveria fazer quando ele disse ‘não tente saber para onde vai, você vai se apresentar à Justiça’”, contou. A família seguiu para Jaú, se aproximou de uma comunidade evangélica e Enéas se apresentou à Justiça em 1995.

“Eu prefiro pagar na Terra o que fiz. Fui sentenciado há 21 anos”, afirmou. Passou pelo Distrito Policial de Botucatu, Cadeia Pública de Avaré e Penitenciárias de Pirajuí e Bauru (2), foi reeducando do Instituto Penal Agrícola (IPA). Teve bom comportamento e, depois de 10 anos de cadeia, conseguiu a liberdade. Hoje ele vive em Bauru com a esposa e quatro filhos. Trabalha, estuda e coopera nas obras da Igreja Apostólica Cristã.

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Desejo de consumo

O advogado criminalista Edson Reis, ex-presidente da subseção Bauru da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), indica que em uma sociedade como a que vivemos, que valoriza o consumo e na qual a imagem de sucesso está ligada ao ter, o desemprego, a falta de oportunidades e o baixo poder aquisitivo levam ao extremo do crime.

Segundo o advogado, nenhuma pessoa antes de cometer um crime estuda o delito para saber qual a conseqüência, mas a preferência em subtrair bem alheio tem a ver com a obtenção imediata do objeto ou dinheiro. Para Reis, o roubo está ligado ao “onde está o dinheiro”, já que, dependendo do bem a ser subtraído, o furto é impraticável.

Outro fator que se alia à fala do advogado sobre a sistêmica entre a desigualdade social e o crime é a predominância de jovens atrás das grades, muitos ex-internos da Fundação Casa (antiga Febem).

Nas penitenciárias, segundo o Depen, 48.727 homens de 18 a 29 anos estão atrás da grades.