Jaú - O adolescente infrator que reincide na cidade de Jaú tem um perfil quase uniforme. Não estuda, usa drogas e tem família desestruturada. Ressocializar esse público é como montar uma colcha de retalhos, já que os problemas envolvem, de forma geral, a família.
Os atos infracionais praticados por menores na cidade de Jaú vão desde a falta de habilitação até latrocínio (roubo seguido de morte), roubo, estupro e tráfico, constata o promotor da Vara da Infância e Adolescência de Jaú, Alexandre Barbieri Júnior. “Para nós, os problemáticos, aqueles que exigem medidas mais rigorosas como a internação, são os reincidentes. A maioria deles é fruto de famílias desestruturadas.”
Barbieri Júnior aponta que os infratores são filhos de pais desconhecidos ou alcoólatras. “Às vezes acontece em famílias estruturadas, mas é bem mais difícil.”
A assistente social Sílvia Masseli Helene complementa as informações do Ministério Público onde faz o atendimento, dizendo que dos 93 atendidos esse ano, 80% estão em fase de evasão ou exclusão escolar. “São adolescentes de 14 a 17 anos, especialmente do sexo masculino, que praticam furtos, porte de entorpecentes e vias de fato. As ‘brigas’ ocorrem, inclusive, na sala de aula contra professores.”
Pela constatação diária, a assistente social percebe que os infratores são de classe social baixa. “Sabemos que há menores em outras classes sociais que também usam drogas, por exemplo, mas eles não se expõem tanto e por isso ficam fora das estatísticas.”
O ato infracional que mais atrai os adolescentes é o tráfico. “A clientela do tráfico é boa, deve concentrar o maior número. De usuários eles passam a vender para sustentar o vício.”
Os terrenos baldios e os locais de pouca movimentação de pessoas e veículos são os preferidos pelos infratores. “Não temos uma região delimitada. Eles estão espalhados por toda a cidade, bares etc.”
Quando surpreendidos pela polícia, os jovens são encaminhados para o Ministério Público. “Eles chegam das delegacias que fazem o encaminhamento. Aqui nós abordamos questões sociais, escolares e familiares. São encaminhados para um projeto de Liberdade Assistida (LA) que é bancado pela Febem e administrado pela Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais (APAE).”
Na entidade, os infratores, segundo a assistente social, recebem orientações pedagógicas, psicológicas e acompanhamento social juntamente com a família. “Se necessário, eles são encaminhandos para a escola ou para o trabalho.”
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Ressocializar ainda é sonho
Na opinião da assistente social Sílvia Masseli Helene, é necessário impor disciplina na rotina do infrator para que ele não volte a reincidir. “Meu sonho é encaixá-los num projeto de trabalho para que eles aprendam a cumprir horário. Onde eles tenham determinações a serem cumpridas e deixem a rotina da rua.”
Para a assistente social, o encaminhamento ao trabalho é sinônimo de obstáculo. “É onde encontro a maior dificuldade. Gostaria de encaixá-los num projeto como menor aprendiz. A vida na rua não tem limites e eles acabam acostumando com isso, não têm disciplina.”
O limite poderia ser imposto pela família, que por ser desestruturada não consegue, comenta. “Num trabalho eles poderiam ser uniformizados, poderia ser um projeto municipal atrelado a Liberdade Assistida.”
Para um grande número de infratores, o pai é ausente e as mães trabalham fora. “As mães saem cedo de casa e só retornam à noite, não tendo como ‘vigiar’ os filhos.”
Helene frisa ainda que as palestras e conversas, em alguns casos, não têm surtido o efeito desejado. “As conversas surtem efeito para aqueles que nunca cometeram infração, para os reincidentes, a conversa já não funciona. Temos que cercear, infelizmente.”