09 de julho de 2026
Articulistas

Capacidade de inovação


| Tempo de leitura: 3 min

A baixa, ou talvez insuficiente, capacidade de inovação é o que caracteriza as nossas sociedades, em que a reprodução de um modo de vida e de produção capitalista precedem a originalidade, a criação e a elaboração de saberes. A novidade virou marca de distinção do consumo, onde inovaremos se comprarmos o carro do ano, o celular da moda e a roupa do momento. Além disso, a observação acrítica da realidade acompanha o usufruto de seus recursos e atividades como um movimento normal e harmônico, embora a ordem das coisas seja aparente. Há fenômenos, e não são poucos, que fogem do nosso controle.

A cada ano, chegará a época do Papai Noel, da impressão de um Ano Novo, do Carnaval e, talvez o menos esperado, do retorno às atividades escolares para alguns e profissionais para outros. Dentro deste esquema cronológico, é possível prever que o homem barbudo de gorro e vestido de vermelho trará os presentes se não se enroscar na chaminé, a abertura dos champanhes e o clima de comemoração farão as pessoas acreditarem que o ano vindouro será melhor, a inversão de valores permitirá que o pobre vire rico ou que o triste fique feliz e vice-versa, e, por fim, a volta à rotina é aquilo que todo mundo já sabe.

Por sua vez, algumas músicas tocam várias vezes na rádio, principalmente se estiverem entre as mais escolhidas pelo público, a televisão repete filmes que marcaram outras épocas (quantas vezes já passou “Esqueceram de mim” e “Parque dos dinossauros” na Globo?), quase sempre acessamos os mesmos sítios da Internet para abrir mensagens de correio eletrônico ou programas de bate-papo, os cursos preparatórios para o vestibular restringem-se àquele conjunto de conceitos, classificações e idéias de décadas e talvez séculos atrás, exceto quando se traz algum tema da atualidade ou novas propostas didáticas.

Na maioria das vezes, a maneira como reagimos às diferentes situações não é inovadora. Quando cumprimentamos alguém na rua ou desgostamos de alguma situação, são quase sempre as mesmas expressões que se dizem e se ouvem. A inovação requer o aperto de um gatilho a mais de energia e vontade, donde se infere que é possível sermos inovadores, embora não se possa dizer o mesmo em relação ao ambiente que nos rodeia, pois este não depende só da nossa vontade inovadora, ou seja, não tem como evitar que o ônibus passe aquela hora na rua, ou que se estourem fogos em momentos comemorativos, e outros.

Entretanto, a generalização de que o ser humano nunca é original não se aplica tampouco é pertinente, visto que, por mais que a sua capacidade inovadora seja baixa e muito do que aconteça ao nosso redor seja previsível e recorrente, cada pessoa tem uma trajetória que, por si, já é original e, portanto, inovadora. Como dois corpos não ocupam o mesmo lugar no espaço em dado tempo, a física é categórica nesta comprovação; além disso, há um conjunto de fatores, tais como a interação em família, o círculo de amigos, os acasos e outros processos ativos que pontuam a seu favor e nos atribuem alguma capacidade de inovação.

O autor, Bruno Peron Loureiro, é bacharel em Relações Internacionais pela Unesp e pesquisador visitante na Universidad Nacional Autónoma de México.