Cenas comuns nos grandes centros são cada vez mais freqüentes em Bauru. Em muitos semáforos da região central da cidade é possível encontrar trabalhadores informais que vendem produtos diversos. Por meio deste trabalho, muitos vendedores conseguem complementar a renda ou garantir o sustento de suas famílias. Entre os entrevistados pela reportagem, em média o lucro mensal gira em torno de R$ 800,00.
Alexandre Silva Rodrigues, 32 anos, trabalha como vendedor informal há 11 anos. Ele compra seus produtos em São Paulo e revende na esquina da rua Gustavo Maciel com a avenida Duque de Caxias. Rodrigues comercializa acessórios para veículos e celulares e conta que já chegou a lucrar R$ 1 mil em um mês. “No inverno as vendas diminuem, então, estou ganhando uns R$ 600,00. Mas quando os dias estão mais quentes e mais próximos do final do ano, eu ganho de R$ 800,00 a R$ 1 mil”, diz.
A renda dele é essencial para que sua família consiga se manter durante o mês. Ele é casado e tem um casal de filhos com menos de 10 anos. Sua esposa trabalha com registro em carteira como operadora de telemarketing. Segundo ele, com a soma dos salários a família não passa dificuldades. “É claro que não temos muito dinheiro, mas dá para suprir as nossas necessidades básicas e algumas emergenciais”, ressalta Rodrigues.
O vendedor já teve outros empregos, inclusive formais. Já trabalhou com serviços gerais e carga e descarga de veículos, mas após ser demitido, não conseguiu retornar ao mercado de trabalho. “Eu procurava emprego e não encontrava. Cansei de deixar currículos nas empresas. Eu precisava arranjar um jeito de ganhar dinheiro, então, decidi vender meus produtos aqui”, relata.
Estabilidade
Mesmo gostando do que faz, Rodrigues tem vontade de conseguir um emprego mais estável. “Seria muito bom ter um emprego com registro (em carteira de trabalho) e ganhar mais. O registro nos dá mais segurança”, fala.
Daiana Talita de Oliveira, 19 anos, até possui a estabilidade do registro, mas seu salário não é suficiente para arcar com os gastos mensais. Por isso, ela começou a vender gomas (balas) na esquina das avenidas Nações Unidas e Rodrigues Alves, há quatro meses.
“O meu salário bruto é de R$ 350,00, mas com esse dinheiro mal consigo pagar o aluguel e fazer a compra do mês”, conta ela. “Ainda bem que não preciso me preocupar com as despesas das minhas duas filhas, uma com 4 e outra com 2 anos, pois o pai delas as mantêm. Senão, seria ainda mais complicado”, observa.
Como vendedora informal ela já chegou a ganhar R$ 1,5 mil em um mês. Quando se dedica, consegue ganhar cerca de R$ 60,00 por dia ou R$ 250,00 por semana. Ela fica no semáforo daquele cruzamento das 9h às 17h, quando precisa sair para trabalhar em seu outro emprego.
Daiana ressalta que vender gomas no sinal é um trabalho digno como qualquer outro. “Eu não estou pedindo nem roubando, estou trabalhando”, enfatiza.
A jovem explica que, com o salário fixo que recebe, ela paga o aluguel e faz a compra do mês para a casa. Com o restante (as vendas no semáforo) paga outras contas, compra artigos de uso pessoal, como roupas e sapatos, e paga cursos. O objetivo é estar preparada às exigências do mercado de trabalho. “Estou investindo em mim”, diz.
Ela não esconde que deseja conseguir um emprego formal no qual seu salário seja suficiente para suprir suas necessidades. “Gostaria muito de ter um único emprego que pagasse todas as minhas contas e me desse estabilidade, por isso tenho procurado estudar e me preparar”, conta. Segundo Daiana, muitas pessoas discriminam quem vende objetos nas ruas e isso a incomoda, mesmo tratando-se de um trabalho digno como qualquer outro.
O paulistano Aparecido Pereira Corinto, 46 anos, também tira seu sustento do trabalho informal. Ele percorre várias cidades vendendo vasos para jardins e decoração. “Não sou eu que faço os vasos. Eu revendo para um amigo e ganho comissão, ou seja, só recebo se vender”, diz. Quando não há baixa nas vendas, ele consegue receber entre R$ 800,00 e R$ 900,00 ao mês.
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Situações cotidianas
Ao sair para vender produtos nos semáforos, os trabalhadores informais estão expostos a inúmeras situações. Eles se deparam tanto com a simpatia e cordialidade de algumas pessoas quanto com a grosseria e o desrespeito de outras.
Em seus 11 anos de trabalho na rua, Alexandre Silva Rodrigues já formou sua clientela e conquistou, inclusive, algumas amizades. “Muitas pessoas vêm aqui comprar meus produtos e, caso eu não esteja, voltam depois”, conta ele. “Sem falar daqueles que vêm aqui por indicações. É muito bom saber que alguém reconhece e gosta do nosso trabalho”, complementa com um sorriso no rosto.
Segundo ele, no começo foi difícil conquistar a confiança das pessoas. “Algumas me olhavam como se eu fosse vagabundo, ou pensavam que eu ia roubar. Mas hoje a situação é muito melhor, apesar de algumas descarregarem o mau humor em cima da gente”, lamenta.
Já Daiana Talita de Oliveira, que vende gomas há quatro meses no cruzamento das avenidas Nações Unidas e Rodrigues Alves, tem mais dificuldades no dia-a-dia. Ela conta que é muito comum os motoristas erguerem o vidro e deixá-la falando sozinha. “Parece que eles não vêem isso como um trabalho honesto. É uma situação muito ruim”, relata. Ela conta, ainda, que muitos homens a confundem com prostitutas, perguntando quanto custaria um “programa”.
“Eu me sinto desrespeitada diante de algumas situações. Sei que trabalho honestamente, mas às vezes tenho vergonha do que faço”, diz. “Essa vergonha não é, especificamente, pelo meu trabalho, pelo que eu tenho que fazer, e sim pela maneira preconceituosa que muita gente o vê”, finaliza.