Pelos anos 60, no rio Jacutinga, em Avaí, íamos quase toda a tarde pescar tambius e piabas. Nos finais de semana o rio ficava apinhado de pescadores de várias cidades, muito deles sem experiência e que nada pescavam. E morava com a mãe num casebre nas margens do rio um mulato ladino, Vicente Capa-Preta. Eram tempos difíceis e, para aumentar a renda, na pachorra dos domingos à tarde, Vicente anunciava:
- Pastel de camarão! Olha o pastel de camarão.
- Esse negócio é garantido mesmo? E onde que sua mãe arranja camarão?, perguntavam os pescadores.
- É garantido tenho certeza. Agora camarão não sei se é donde. Isso é com a mãe, eu só vendo o pastel.
Olhos gulosos, os pescadores compram os pastéis, dão uma mordida, buscando o raro gosto. Intrigados olham dentro do pastel e gritam ameaçadores:
- Ô moleque safado! Cadê o desgraçado do camarão.
- Conforme eu falei, eu só vendo o pastel. O negócio do camarão, uns gostam outros não gostam, a mãe pega e não põe.
Carlos Iunes é pescador e contador de histórias.