09 de julho de 2026
Cultura

Sobre mundos: A coleira e a floresta

Por Padre Beto | Especial para o JC
| Tempo de leitura: 4 min

Certo dia, o lobo resolveu visitar o cão que cuidava de um dos sítios à beira da floresta. Ao entrar no quintal do sítio, o lobo avistou o cão e disse: “Amigo, venha cá, eu gostaria de conversar com você.” O cão, então, respondeu: “Me desculpe, mas eu não posso ir até você, pois estou preso por uma coleira.” O lobo, então, admirado disse: “Mas, você não é livre? Eu pensei que você tivesse uma vida boa!”

“Eu tenho uma vida boa”, respondeu o cão, “eu recebo minha refeição três vezes ao dia, eu não tenho preocupações...” “Mas... você conhece os campos e a floresta? Você já saiu alguma vez para caçar coelhos?”, perguntou o lobo. “Não”, respondeu o cão, “eu não sou livre, eu sempre estou na coleira.” “Mas isso é ruim, muito ruim”, disse o lobo, “pois os campos e a floresta são as coisas mais lindas na face da Terra...”

O cão teria gostado de ouvir mais sobre os campos e a floresta, mas o lobo se despediu dizendo: “Eu não vou ficar aqui deixando você com mais água na boca. Eu vou voltar para os meus amigos e contar sobre sua vida de coleira!” Então, o cão sentou-se e começou a chorar e nunca mais foi feliz como antes. O lobo, porém, voltou para a floresta e para os campos e era muito feliz. Depois de algum tempo, o inverno chegou e cobriu de gelo toda aquela região da Europa. O lobo, então, morreu de fome, por não achar nada para comer.

Escreveu, certa vez, Cecília Meireles: “liberdade é uma palavra que o sonho humano alimenta, não há ninguém que explique e ninguém que não entenda”. Esta liberdade que é extremamente difícil de ser expressada em palavras, mas muito fácil de ser entendida, é a base de nossa condição antropológica. Nós não possuímos uma “liberdade existencial”, pois ninguém escolheu estar ou não na existência. Mas, a partir do momento em que começamos a viver, buscamos a expansão de nosso ser e a realização de nossa pessoa. Para isso, exercitamos constantemente a “liberdade de escolha”.

Durante nosso desenvolvimento como pessoa, torna-se necessário a conquista de espaços, a delimitação de nosso território e a clara determinação do que queremos ser ou fazer. Portanto, dar forma ao nosso ser e construir a nossa própria história depende intimamente de nossa capacidade e disposição de optar, de escolher entre as alternativas que a vida nos oferece. Sem dúvida alguma, a liberdade absoluta é uma utopia. Graças a diversos fatores de ordem social, moral, econômica, psicológica ou de saúde, as alternativas oferecidas pela vida não são muitas ou até mesmo escassas.

Mas, se pensarmos bem, a falta de muitas opções na vida não representa o nosso principal problema em relação à liberdade. Muito pior que a escassez de alternativas é o medo diante da escolha. Pior que uma porta trancada é a falta de vontade de virar a chave. Diante da diversidade nós, muitas vezes, renunciamos a enfrentá-la, pois temos medo de perder o que já possuímos ou somos. Justamente no comodismo de deixar as coisas como estão encontra-se a nossa verdadeira “falta de liberdade”. Muitas vezes, preferimos viver na “coleira”, nos contentamos com as “três refeições ao dia” e deixamos de ser nós mesmos ou de fazer aquilo que realmente nos realizaria.

A perda da verdadeira liberdade está, na maioria das vezes, na cômoda proteção de alguém, na dependência de uma instituição ou na aprovação de um determinado grupo social. Segundo Hannah Arendt, o principal mandamento para o homem não é aquele que prescreve um “fazer” ou “não fazer”, mas sim aquele que determina: “todo ser humano deve querer”. Para que eu seja verdadeiramente humano é necessário que eu possa ativamente “querer”. Este mandamento sagrado significa, em última instância, que diante de qualquer situação, diante de qualquer determinação, eu tenho o direito como pessoa de responder, de forma consciente e coerente, com um “sim” ou um “não”.

Na verdade, o ideal seria que a única relatividade de nossa liberdade fosse a obrigação de escolher uma determinada alternativa. Mesmo porque, se eu não escolher, alguém o fará por mim. Este “direito de escolha” não somente delimita o tamanho de minha autonomia e minha dependência, como também de minha tolerância, pois o meu direito de escolher deve me ensinar, por mais difícil que seja, a respeitar o direito de escolha dos outros. O principal é saber que, em última instância, ninguém pode realmente optar por mim. Somente eu mesmo posso trilhar o meu caminho.

Para ser livre é necessário que cada um possa encontrar o sentido de sua vida e a forma de verdadeiramente ser feliz, mesmo que se corra o risco de enfrentar um inverno pesado. Afinal, “é preciso viver, não apenas existir” (Plutarco).