09 de julho de 2026
JC Criança

Histórias da guerra

Daiana Dalfito
| Tempo de leitura: 2 min

“Marcha, soldado, cabeça de papel, se não marchar direito, vai preso no quartel”! Muitas crianças gostam de brincar de soldado e dobrar chapéus de papel para colocar na cabeça. Em 1932, jovens paulistas deixaram a brincadeira de lado e foram para a guerra de verdade.

O ‘seo’ Heni Scaf tem quase 97 anos e muita história para contar. Ele, quando tinha apenas 21, se alistou como voluntário nas fileiras de soldados paulistas. ‘Seo’ Heni era caixeiro, um tipo de vendedor do comércio, e nunca havia pego em armas. Com ele, muitos outros 70 moços da cidade de Avaí, aqui perto de Bauru, e outros tantos índios da aldeia de Araribá foram para a guerra.

‘Seo’ Heni e metade dos seus colegas de Avaí foram para a Serra da Mantiqueira, uma série de montanhas entre os Estados de São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais. O batalhão do ‘seo’ Heni ficou encarregado de tomar conta de uma fábrica de pólvora na cidade de Piquete, Estado de São Paulo.

“Estávamos muito bem entrincheirados, mas éramos poucos. Ainda bem que não fomos atacados ou seria uma carnificina”, conta o veterano combatente. ‘Seo’ Heni operava um fuzil metralhadora, mas não chegou a lutar. Esteve nos campos de batalha por mais de um mês e chegou a andar de uma cidade próxima a Ubatuba, no litoral, à cidade de Aparecida do Norte.

A guerra já estava perdida para São Paulo, tanto que um carregamento de armas vindas do Exterior nem mesmo chegou às mãos dos paulistas. Para deixar o campo de guerra, ‘seo’ Heni e outros soldados foram colocados em vagões de trem de carga, junto com mercadorias.

“Estávamos mortos de fome e no trem havia uma caixa de bacalhau salgado, comemos o peixe cru e salgado, sem um gole de água”, conta. Imagine só que sede! Os soldados seguiram de trem até Bauru e foram para suas cidades. A guerra tinha acabado.

Quando chegou a Avaí, ‘seo’ Heni voltou a trabalhar como vendedor. “Um dia, quando eu estava atrás do balcão, um freguês entrou na loja com o olho arregalado. Veio dizendo que tinha mandado rezar uma missa para a minha alma, já que na cidade corria o boato que eu havia morrido em combate”, termina o veterano.

Hoje, na memória, o ex-soldado guarda as aventuras que viveu e, no braço e no peito, traz as medalhas que recebeu no passar dos anos. Para ‘seo’ Heni, ter participado da maior guerra que São Paulo enfrentou é motivo de orgulho.