10 de julho de 2026
Geral

Encontro em Iacanga quer manter vivo o espírito das Águas Claras

Rodrigo Ferrari
| Tempo de leitura: 5 min

O tempo passa, mas eles permanecem sendo os mesmos: nos cabelos, nas roupas, nas atitudes e na maneira de pensar. Ganham a vida fabricando artesanato nas praças e quase nunca têm morada fixa. Preferem ser chamados de alternativos, muito embora as pessoas ainda insistam em classificá-los como hippies.

Em setembro, eles pretendem realizar um grande encontro que, certamente, irá agitar o pacato cotidiano de Iacanga (50 quilômetros de Bauru). O evento, que está sendo organizado de maneira “informal”, tentará reunir os remanescentes do Festival das Águas Claras, ocorrido em quatro edições nas décadas de 1970 e 80.

Embora passe a impressão de se tratar de um acontecimento “sem lenço e sem documento”, o evento já tem data definida para ocorrer: o reencontro será nos dias 21, 22 e 23 de setembro, provavelmente na Praia das Mangueiras. Os organizadores esperam levar 2 mil pessoas ao reencontro. Esse “revival” não será (e, aliás, nem pretende ser) uma reedição do antigo festival. Primeiro, porque o público esperado para o evento deste ano é bem menor do que o registrado no Águas Claras (100 mil pessoas, em 1981).

Além disso, o reencontro não contará com a presença de grandes nomes da música brasileira, mas sim com bandas alternativas da região de Bauru. Diferentemente do Festival das Águas Claras, que chegou a ser anunciado até em grandes emissoras de televisão, o evento atual sequer está sendo divulgado, a não ser no próprio meio alternativo através do velho e infalível método boca-a-boca.

‘Velhos saudosistas’

Logo que foi convocada por amigos, há alguns meses, para tomar parte na organização do evento, Rosa Maria Cheixas Dias, 44 anos, não se mostrou muito animada. “Falei comigo mesma: ‘Xi, isso vai ser mais um daqueles encontros de velhos saudosistas’”, diz.

Na medida em que o projeto foi ganhando forma, porém, ela passou a se animar. “Acho que vai ser legal poder rever a galera”, acredita. Por enquanto, não estão definidas quais bandas irão participar o evento. Os organizadores ainda aguardam a confirmação do proprietário da Praia das Mangueiras para que o encontro possa ocorrer de fato no local.

“O que interessa não é o lugar, mas sim as pessoas. Quando chegar a data combinada, a galera vai chegar e vamos nos reunir, seja na praia, seja em outro canto qualquer”, diz ela. Rosa fala com tanta certeza porque é uma mulher persistente.

Ela se tornou hippie no final dos anos 1970, época em que o movimento “flower power” já estava indo para o espaço. “Eu costuma passar pela Praça de República (Centro de São Paulo), quando criança, de mãos dadas com a minha mãe, e ficava olhando para eles encantada. Pensava: ‘Essas pessoas não moram em lugar nenhum, mas são felizes; não tomam banho, mas não têm cara de gente suja.’ Descobri que eles eram daquele jeito porque estavam de bem com a vida e de consciência tranqüila consigo mesmos”, recorda.

Rosa não participou das duas primeiras edições do festival. “Em 1975, eu era muito nova. Já em 1981, permaneci acampada numa mata perto de minha casa (na zona norte da Capital) com um grupo de 15 amigos durante todos os dias do Águas Claras. Fizemos aquilo para demonstrar que estávamos solidários ao evento”, garante.

Milho no pé

Rosa descobriu o Festival das Águas Claras por acaso. “Estava assistindo desenho animado, quando, de repente, surgiu a propaganda. Nunca havia ouvido falar em Iacanga. Naquela época, eu pouco vinha ao Interior. Meu caminho de maluca era o Litoral”, garante. Em 1983, ela resolveu conhecer de perto “a tal de Iacanga”. “Fiquei espantada, quando vi as espigas de milho no pé e as vaquinhas comendo grama no pasto. Para mim aquilo era coisa de literatura”, recorda.

Rosa viajou de carona e chegou a Iacanga 15 dias antes da abertura do festival (ocorrido nos primeiros dias de junho). “O pessoal me olhava meio torto, porque eu usava um cabelão ‘estilo Maria Bethânia’ e aquelas roupas indianas. Só que eles eram legais, não tinham vergonha de vasculhar a minha vida. Abriam minha bolsa, fuçavam minhas coisas, era um barato”, conta.

Rosa acabou tomando gosto pela tranqüilidade do lugar. “Depois que o festival acabou eu vivia pensando em Iacanga. Resolvi, então, voltar e ficar de vez”, diz. Hoje ela trabalha como agente recenseadora do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), tem três filhos (todos adultos) e uma neta, ainda bebê.

“Se não fosse por ela (a menina), eu já teria ido para o Norte do País e me engajado em algum movimento de defesa do meio ambiente. Não sei se seria na Amazônia ou no Pantanal. Os dois lugares estão pedindo socorro”, diz.

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Rótulos rejeitados

Meire Fernando Dias Rosa, 25 anos, é natural de Ourinhos e ganha a vida vendendo bijuterias na praça Rui Barbosa (Centro). Apesar de ser adepta de um estilo de vida mais errante, ela está prestes a arrumar um endereço fixo. Ela vai se casar com o também artesão Valdir Barros, 26 anos.

Apesar de ser uma mulher bastante tranqüila, Rosa quase “perdeu a boa” com o repórter do JC, quando este lhe perguntou se ela e Barros haviam namorado e noivado como um casal qualquer. “É lógico, moço. Somos seres humanos normais! Vocês (a sociedade como um todo) é que ficam colocando rótulos na gente”, disse.

Ela se refere ao fato de ser chamada de hippie pelas pessoas que passam na rua. “Esse lance de hippie é coisa do passado, dos anos 70. Hoje isso não existe mais”, diz ela. ”Se bem que é melhor ser chamada assim do que de louca, pé-sujo ou mendiga”, pondera ela. De fato, quando Rosa nasceu, o movimento hippie já se encontrava em franca decadência.

Os hippies surgiram nos final dos anos 60, nos Estados Unidos, e faziam parte daquilo que se convencionou chamar contracultura. Adotavam um modo de vida nômade, opunham-se ao nacionalismo e à Guerra do Vietnã, abraçavam aspectos de religiões como budismo e hinduísmo e estavam em desacordo com os valores tradicionais da classe média norte-americana.

Com o passar dos anos - sobretudo depois dos grandes festivais musicais de Monterey e Woodstock - diversos elementos do movimento passaram a ser incorporados pela sociedade e os hippies acabaram perdendo muito de sua aura contestatória.