10 de julho de 2026
Geral

Estoque do ‘museu' dos azulejos revestiria até meio Pacaembu

Luiz Galano
| Tempo de leitura: 3 min

Num imóvel de 10 por 25 metros na Vila Seabra estão guardados 30 mil metros quadrados de cerâmicas que são verdadeiras relíquias. Há peças datadas de 1950. São toneladas e toneladas de azulejos e pisos de todos os formatos, épocas e cores. Juntos, poderiam ser usados para revestir quase metade da área construída do tradicional estádio do Pacaembu, em São Paulo, que tem 75.598 m². Na loja há, ainda, louças sanitárias e peças para piscinas.

Essa é a megaloja de Roberto Garcia, 60 anos, que há 22 comercializa cerâmica antiga em Bauru. Entusiasmado e cuidadoso, ele sempre foi amante de antigüidades - principalmente carros. Quando perdeu o emprego de desenhista em São Paulo, em 1985, decidiu montar seu próprio negócio e, depois de muita pesquisa e de um estágio na loja do mesmo ramo que seu cunhado mantém em Santos, ele resolveu abrir seu (então) pequeno museu em Bauru. “Comecei com apenas um caminhão de material”, conta.

Com o passar dos anos, as viagens a cidades da região para aquisição de caixas e caixas de azulejos deram bons frutos e as relíquias foram se multiplicando, até tomarem um espaço de 10 por 25 metros inteiro. “É uma verdadeira loucura. Não tem jeito. Você tem de comprar e manter estoque na esperança de que, algum dia, alguém compre aquela peça. Mas você nunca tem noção se vai vender ou não”, revela o comerciante.

Ele calcula nunca ter mexido em metade das caixas de piso e azulejos por falta de interessados. “Tem coisa que comprei em 1985, quando abri a loja, e nunca mais peguei”, diz.

Apesar disso, Garcia defende a tese de que precisa sempre aumentar o estoque para satisfazer o cliente. “Um dia vende. Tem gente que já veio do Espírito Santo e da Bahia a passeio e voltou feliz da vida depois de ter passado aqui e encontrado cerâmicas que precisavam há muito tempo”, conta, revelando também que é comum atender clientes de diversas cidades da região à procura da “salvação” das paredes de banheiros e cozinhas antigos.

Preço

Apesar do intenso movimento - durante o tempo em que a reportagem esteve no local, dois clientes compraram produtos -, as relíquias de Garcia, ao contrário do que ocorre com aquelas guardadas em museu, não têm valor exorbitante. “Se eu fosse embutir no preço o tempo que eu mantenho o material guardado e o dinheiro gasto nas viagens para adquirir material, ninguém comprava nada”, acredita o ex-desenhista, que afirma não ligar muito para a idade da peça. Ele cobra de acordo com o tamanho da peça. Em média, R$ 5,00 cada azulejo ou piso.

Nos corredores empoeirados formados pelas dezenas de prateleiras que abrigam as milhares de caixas de cerâmica empilhadas, com certeza estão guardadas diversas histórias do passado. Passado presente na mete de Garcia, que produz gravuras a nanquim de paisagens e carros antigos durante as horas de folga, numa prancheta que divide espaço com as caixas de azulejos.

“Isso aqui (hobby e serviço) é paixão. É como quem gosta de carro velho. Tem ser muito apaixonado e se dedicar ao máximo”, tenta explicar o sentimento a respeito do seu trabalho. “Entrei no asilo antes dos 40 anos e nele vou ficar até quando puder”, brinca. A loja, com o sugestivo nome de “Asilo dos Azulejos”, fica na rua Coronel Alves Seabra, 18-16, em Bauru.