09 de julho de 2026
Nacional

Obra reúne dez releituras de Machado

Por Eduardo Simões | Folhapress
| Tempo de leitura: 4 min

Ler e reler Machado de Assis (1839-1908) é a melhor maneira de homenageá-lo em seu centenário de morte. Com esse mote, a Publifolha convidou dez autores brasileiros para recriar a obra do bruxo do Cosme Velho. O resultado são nove contos e uma peça, reunidos no volume “Um Homem Célebre: Machado Recriado” (Publifolha, R$ 29,90, 192 páginas), recém-lançado pela editora.

Para o editor Arthur Nestrovski, não se trata apenas de atualização da obra de Machado. “Estamos também nos atualizando, com a sagacidade do autor para sacar questões centrais da cultura brasileira, sobretudo a desigualdade social e suas ramificações, e o modo como Machado adivinha, por exemplo, o mundo da celebrização que vemos hoje em dia.”

Os autores tiveram liberdade para reler os originais de Machado. Os textos ora se distanciam da matriz, ora se aproximam, propositalmente. Caso de Felipe Hirsch, com sua releitura de “O Espelho”. E de Sérgio Augusto de Andrade, que recriou “Cantiga de Esponsais” em “Trechos de um Diário”. Para Nestrovski, o resultado é “um extraordinário exercício de estilo”, com direitos a palavras como “piparotes” e outras marcas do português machadiano.

Segundo Andrade, recriar Machado é um desafio no melhor dos sentidos: o de obrigar todos os que escrevessem depois dele a repensarem a língua portuguesa no Brasil. “Talvez não houvesse nada mais estimulante, de um lado, nem mais divertido de outro. “Cantiga de Esponsais’ é quase um exercício jamesiano (à moda do escritor Henry James) sobre a arte. Achei que poderia ser curioso se tentasse imaginar um exercício machadiano sobre a criação”, diz.

Narradores inanimados

Entre os textos que mais se distanciaram do original, Nestrovski destaca a experimentação com desenhos do escritor e quadrinista Lourenço Mutarelli, em sua versão dita “psicografada” para o clássico “Memórias Póstumas de Brás Cubas”. E também a releitura da escritora Carola Saavedra para “Uns Braços”. Ele ressalta que “Vigília”, “talvez o mais arrojado” dos contos, foi reescrito de uma perspectiva do século 21.

Sobre o desafio, Carola diz que a primeira questão que surgiu foi como lidar com a idéia de “monstro sagrado”.

“Parti do princípio de que o tal monstro era uma espécie de Medusa, e que o mais seguro seria jamais olhá-lo nos olhos. O que fiz, então, foi retirar determinados elementos secundários do conto, como o mar, o xale, o silêncio, os quadros etc., e dar a cada um deles uma voz, de modo que através deles, fosse possível estender, transformar e dialogar com o texto original”, afirma Carola.

“Outra preocupação foi que esse diálogo não se restringisse ao conto apenas, mas que, de certa forma, levasse em consideração o estilo de Machado e a sua importância para os autores que surgiriam depois”.

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Capitu é tema de revisão também na ficção

Outro título propõe uma releitura bem específica da obra de Machado. Organizado por Alberto Schprejer, “Quem É Capitu?” (Nova Fronteira; R$ 29,90; 176 páginas) debruça-se sobre a personagem de “Dom Casmurro”. Para Schprejer, o fascínio por Capitu chega a ser maior do que o próprio romance. As releituras, diz ele, têm como ponto de partida as revisões da crítica em relação à obra, dos anos 60, e que propunham não mais ver a personagem como “maldita ou diabólica”.

O livro inclui textos de um psicanalista (Luiz Alberto Pinheiro de Freitas), uma historiadora (Mary Del Priore) e até um cineasta (Luiz Fernando Carvalho). Segundo Schprejer, o resultado é interdisciplinar sem ser acadêmico. “Propus que eles fizessem como quisessem. O John Gledson e o Silviano Santiago vêm com um olhar que já esperava, de críticos. Eu esperava uma crônica do Verissimo, por exemplo, mas ele veio com um conto inesperado e genial.”

Lya Luft, que assina “Capitu: Para que Saber”, pondera que a personagem virou um “símbolo do chamado mistério feminino, mas não no melhor dos sentidos. “Por isso, meio cansada de tanta teoria sobre a moça, que no final era uma chatinha entediada, resolvi me botar na pele dela e inventar o conto”, diz Lya, que relativiza os enigmas em torno de Capitu. “Enigmas sempre permanecem, na mais singular personagem, na mais banal dona de casa.”

Organizado por Rinaldo Fernandes, “Capitu Mandou Flores” (Geração Editorial; R$ 49,90, 528 páginas) reúne 40 escritores e traz não só contos mas também ensaios. O elenco de escritores é composto de Lygia Fagundes Telles, Moacyr Scliar, André Sant’Anna, Fernando Bonassi e Nelson de Oliveira, entre outros.

Já “Recontando Machado” (editora Record; R$ 55, 416 páginas), organizado por Luiz Antonio Aguiar, traz textos de Cíntia Moscovich, Cristovão Tezza e Alberto Mussa, entre outros.