08 de julho de 2026
Articulistas

Novela das seis


| Tempo de leitura: 4 min

A novela das seis em suas entrelinhas fala da cultura celta, uma das mais belas, de todos os tempos. Lamentavelmente, o diretor não explora com profundidade as matrizes dessa literatura com material tão rico. Devo uma explicação aos leigos no assunto. Eles viveram na Áustria e desenvolveram na Europa um substrato de costumes, sem nunca terem se constituído em uma nação. A unidade política não passava de uma tribo ou principado e essa divisão acabou por acarretar a derrota frente ao Império Romano, que pouco a pouco os relegou às ilhas britânicas despovoadas: Irlanda, Escócia e Gales, onde conservaram suas crenças. Embora vivendo em grupos separados pesquisas confirmam a existência de hábitos comuns aos celtas de todos os tempos. Como a Irlanda não sofreu o domínio romano, isso fez dela o repositório de uma herança cultural de valor comparável a dos gregos. São celtas as lendas do rei Artur e do Graal, bem como as sagas irlandesas da época pagã, cujo exemplo mais célebre é Tristão e Isolda. Ele o herói de uma lenda contando à prática de transmissão da soberania por intermédio da mãe, ou do tio materno, esclarecendo de modo singular o papel da mulher entre os celtas. Ao mesmo tempo, relata a mais antiga história de amor culminando em morte. Isolda usando seu conhecimento de magia, praticamente obrigou o jovem herdeiro do trono a amá-la. Qualquer semelhança com a Eva, da novela das seis, não é mera coincidência. Isolda estava casada com Melk, tio de Tristão e soberano de um pequeno principado. Conrado era o noivo de sua irmã.

As epopéias irlandesas recolhidas desde o século IX apresentam personagens femininas, fora do comum, como Mebdh descrita como aquela que “prodigalizava a amizade de suas coxas.”Esse aspecto ardente das mulheres celtas está presente no ciclo arturiano, através de Guinevere. Senão, como explicar seus muito raptos por guerreiros misteriosos? O heroísmo de Lancelot provinha do amor da rainha, ele mesmo apregoava. Em torno dela girava a corte e como um sol ela iluminava os cavaleiros da Távola Redonda. O estudo dessa literatura revela uma obra feita de fantasia, de encantamento e de um imaginário com predileção pelo sobrenatural, em oposição ao classicismo mediterrâneo. Na atualidade, é possível também, comparar a expressão estética desse povo, nas peças requintadas executadas em um estilo curiosamente moderno. Estilo baseado em combinações de linhas curvas com motivos vegetais e figurativos perpetuados nas iluminuras dos manuscritos irlandeses e na produção artística romana. A audácia dessa produção demonstra uma capacidade de abstração repetida de tempo em tempo na arte européia. Os objetos, ao quebrar a simetria dos modelos clássicos com liberdade de criação, refletem a sua independência de espírito.

Às convicções religiosas apontam para o politeísmo. Adoravam deidades fantásticas e deuses da natureza, como as forças cósmicas, rios, montanhas, animais, gnomos, duendes e fadas. Comemoravam com festivais os equinócios e solstícios mantendo-se espiritualmente sintonizados com a Mãe-Terra, revelando um sentimento de gratidão pelo que ela oferecia, pois dela brotavam os alimentos e para ela o homem retornava depois da morte. Essas divindades se assimilaram ao panteão romano e ao catolicismo, numa fusão de idéias pagãs e cristãs. Santa Brígida faz parte dessa hereditariedade. Nenhuma menção as crenças dos celtas deixa de referir-se aos druidas. Eles representavam a classe dos xamãs, presentes em todas as sociedades indo-européias primitivas. Na novela, o druida é vivido por Paulo Coelho. Mago Simon relatou, no primeiro capítulo, a saga dos irlandeses de Serranias e a perseguição sofrida por mulheres condenadas à fogueira, sob a acusação de bruxaria, pela santa inquisição portuguesa durante o século XVII. Em seguida o drama passou a desenrolar-se no período da segunda guerra. O mago é protetor daquelas que possuem poderes mágicos e de Nina. Ela recebeu a marca da magia transmitida por Valentina, nascida na Irlanda e consagrada a Brighid – filha de Dagda – deus da magia e da terra. Pérola e a sobrinha são descendentes dela.

De maneira difusa, algumas características da cultura desse povo estão presentes no roteiro feito para a televisão, só não foram suficientemente desenvolvidas. Pena, pois as descobertas recentes dos arqueólogos vêm revelando pouco a pouco que, os povos europeus sejam ibéricos, latinos, germânicos, anglo-saxões ou eslavos, sem saber têm na sua formação um elemento étnico e cultural celta. Do meu ponto de vista, um parentesco e tanto!

A autora, Janira Fainer Bastos, é doutora em estética e história da arte e coordenadora do curso de pós-graduação lato-sensu design de interiores, do Iesb