09 de julho de 2026
Cultura

É do cinqüentão que elas (e eles) gostam mais!

Adriana Fricelli
| Tempo de leitura: 4 min

Ele já foi rebelde, anárquico, lisérgico, glamouroso. Inconstante, abandonou o laquê e se bandeou para o grunge. Agora, mesmo cinqüentão, continua moderno deixando mulheres e, principalmente, homens histéricos. E, neste dia dedicado exclusivamente a ele, o Dia Mundial do Rock, roqueiros de Bauru garantem: o rock não apenas continua muito vivo, como não tem data para morrer.

Nem bem surgiu na década de 50 nos Estados Unidos, o rock logo espalhou a mistura inusitada de blues, country e jazz pelo mundo ocidental. O som das guitarras, baterias e baixos chegavam ao Brasil – devagar e com um certo atraso - pelo rádio e, aos mais privilegiados, pela televisão.

Na década de 60, depois da explosão de Elvis Presley e a ascensão dos Beatles, o mundo se preparava para o surgimento dos Rolling Stones em 1962.

“Para você receber informações das bandas era muito difícil. A gente ficava ansioso esperando um disco ser lançado ou contava com viagens dos amigos que iam para o Exterior e traziam os lançamentos”, lembra Paulo Roberto Penatti, o Paulão, 56 anos, proprietário da tradicional casa de rock de Bauru, o Armazén Bar.

Um ano depois, um cabeludo capixaba chamado Roberto Carlos apareceu cantando “Splish Splash” e “Parei na Contramão”. Era o início da Jovem Guarda no Brasil, comandada pela ternurinha Wanderléa, o tremendão Erasmo Carlos e o rei Roberto. Depois veio a Tropicália, com Os Mutantes, Caetano Veloso, Gilberto Gil e Tom Zé.

“No Brasil se fez rock com qualidade. Nos anos 70, tivemos o Made in Brazil com o rockabilly. O Terço, que fazia um rock progressivo; o hard rock do Patrulha do Espaço e o próprio Raul Seixas, com um rock de raízes brasileiras”, enumera o vocalista da banda Stage e fundador do grupo de rock bauruense Ligha Cathólica, Eraldo Bernardo, 43 anos.

O hard rock apareceu nos anos 70 com Led Zeppelin, Black Sabbath e Deep Purple. Na esteira do estilo, vieram Guns N’Roses, AC/DC, Aerosmith, Kiss e Queen. Foi num show de Fred Mercury que o empresário João Henrique Pinto Ferreira Júnior, o Pio, conheceu o rock.

“Fui levado por um primo meu a um show do Queen no Morumbi, em São Paulo, na década de 80. Tinha 17 anos. A bateria e os riffs da guitarra me chamaram muito atenção”, lembra o empresário, hoje com 43 anos. Depois, a lista de shows só cresceu: Sting, Rock in Rio 1 e 2, Ramones, U2 e Rolling Stones.

Atitude rock

Enquanto o rock já se vestiu de diferentes formas, o músico Eraldo Bernardo mantém a cabeleira de jovem que o fez passar por várias batidas da polícia. “No começo do movimento, nos anos 60 e 70, ser roqueiro era arquétipo de drogado e subversivo. Por causa da ditadura, não era fácil manter uma atitude rock, era uma coisa de gueto”, recorda.

À frente da banda Ligha Cathólica, ele lembra que era comum a chegada do camburão dispersando os roqueiros e a presença da polícia antes das apresentações para “inspecionar” o repertório do show. “As composições eram carimbadas. Uma coisa maluca mesmo”, diz Bernardo.

A perseguição ao estilo era a caça aos rebeldes que movimentavam o rock, ou vice -versa. O som das guitarras elétricas surgiu quebrando as regras da música ao permitir e incentivar uma criação original, transgressora.

A atitude rock foi incorporada pelos motores da Harley-Davidson e a tatuagem de João Henrique Pinto Ferreira Júnior, o Pio. “O rock e o motociclismo ascenderam na mesma época”, explica o empresário, que até hoje participa de encontros de motoqueiros, à base de muito rock’n’roll.

Para Bernardo, hoje o rock sucumbiu ao mercado, foi domado, neutralizado. “A atitude rock não existe mais, a sociedade retrocedeu, está mais conservadora. Até os estudantes estão defendendo posturas conservadoras, algo oposto à época do rock”, afirma.

Mas, na visão do músico, enquanto estética o rock promete ter vida longa. “O rock resume o urbano e, como o mundo caminha para a urbanidade, a massificação, ele vai durar muito tempo”, acredita.

Paulão ainda escuta as mesmas músicas da década de 60 e 70. “Hoje o som é muito descartável”, justifica. E pensa que os velhos e eternos ídolos vão continuar fascinando gerações e gerações de rock. Já Pio ainda espera o surgimento de outros eternos. “O rock vai durar mais 100, 200 anos, e outros ídolos vão surgir com certeza”.

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Origem da data

O Dia Mundial do Rock é comemorado desde 1985. Foi no Live Aid - festival pelo fim da fome na Etiópia - que o dia 13 de julho ficou conhecido como a data desse gênero musical. O evento aconteceu simultaneamente na Filadélfia (EUA) e em Londres (Inglaterra) e teve nomes como Black Sabbath (com Ozzy), Status Quo, INXS, Loudness, Mick Jagger, David Bowie, Dire Straits, Queen, Judas Priest, Bob Dylan, Duran Duran, Santana, The Who e Phil Collins.

Outros festivais com essa mesma consciência social ocorreram na década de 80: o U.S.A. For Africa, Live Aid, Farm Aid, Hear’n’Aid, Artists Against Apartheid e o Amnesty International, reunindo sempre grandes nomes do pop e rock. O Live Aid talvez tenha ficado mais famoso por ter arrecadado mais de US$ 60 milhões, doados posteriormente em prol dos famintos da África.