10 de julho de 2026
Cultura

Mostra traz ‘Abaporu’ para as crianças

Luiz Galano
| Tempo de leitura: 3 min

Mesmo com traços populares, o universo artístico é restrito a pequenas esferas. A compreensão das obras requer certa vivência e leitura. A falta de opção ou a ânsia por informação e entretenimento imediato afasta um pouco a população do ambiente cultural. Principalmente as crianças, que já nascem imersas em fronteiras curtas ou irrestritas. Mas em ambos os casos, a natureza fala mais alto e, independente de qualquer diferença, elas não resistem a uma boa brincadeira.

E é em meio a esse ambiente lúdico que os pequenos (e também grandes) bauruenses com trânsito no complexo de lazer, alimentação e serviços Alameda Quality Center podem “conhecer” um pouco da obra e da história da pintora Tarsila do Amaral, um dos maiores expoentes do modernismo brasileiro.

Até o final do próximo mês, gravuras, textos, réplicas de obras consagradas e objetos pessoais da artista, famosa pelo talento com o pincel e também pela vida pessoal levada à frente do seu tempo, poderão ser “destrinchadas” pelos pais enquanto os filhos brincam na obra mais famosa da pintora, o “Abaporu”. As crianças terão a honra de escorregar pelas enormes pernas da mulher de cabeça pequena. Uma forma inconsciente de incentivar o interesse pela cultura.

“As cores (fortes e alegres) e o traço (simples e grosso) utilizado nas telas têm tudo a ver com o ambiente infantil. É uma forma de trazê-los mais para perto e iniciá-los no mundo da arte”, destaca a curadora da mostra e sobrinha-neta da artista, Tarsilinha do Amaral.

Para a diretora do complexo de lazer, Marcela Constantino, a intenção foi fugir das mostras tradicionais e unir num mesmo lugar interesses de pessoas de várias faixas etárias. “É um conjunto de ações que visa deixar o ambiente mais popular para cativar crianças e adultos”, afirma. “E além disso, dar a oportunidade de aproximar o público da pessoa, expondo objetos que fizeram parte do universo íntimo e cotidiano da artista”, completa. Em meio às réplicas, existem obras originais e gravuras elaboradas em viagens, bem como bengalas, binócolos, casaco de pele, entre outros.

Da concepção à produção do evento inédito foram gastas apenas três semanas. “Tivemos a idéia e decidimos tudo durante um jantar em São Paulo. Inclusive essa iniciativa de construir o brinquedo (o escorregador Abaporu), algo que nunca tinha sido feito”, explica Tarsilinha, que não seguiu os passos da tia-avó, mas ontem teve que dar autógrafos a três crianças que estavam no evento de inauguração.

Certamente sob a assessoria de um adulto, os pequenos Igor, Luísa e Débora, de 11, 9 e 8 anos, abraçaram a curadora e posaram para os flashes. “Não foi ela quem pintou, mas como é da família, é como se fosse”, explica Luísa.

Um pouco de história

Tarsila do Amaral nasceu no dia 1 de setembro de 1886 em Capivari e viveu durante toda a infância no interior de São Paulo, onde recebeu educação refinada, até mesmo com professores estrangeiros. Na adolescência, ela se muda para Paris, a estudo, e quando retorna da Europa se casa com André Teixeira, pretendente escolhido pela família, em 1906. A união dura pouco tempo, em virtude da diferença cultural entre os dois, e ela decide mergulhar de vez no universo artístico.

Começa a estudar pintura ainda no Brasil e depois se muda novamente para a França, onde entra em contato com a elite intelectual européia e desenvolve seu estilo de pintura. Após a Semana de Arte Moderna de 1922, conhece o escritor Oswald de Andrade, com quem se casou em 1926. Apaixonada, produz sua obra mais conhecida, “Abaporu”, e presenteia o atual marido.

Em 1928 faz sua primeira exposição individual em Paris. No ano seguinte se separa do marido e tempos depois engata uma nova união. Em 1950 ela volta ao Brasil e passa pela dor da perda da única filha em 1966. Amparada pela família de Tarsilinha, ela viveu até 1973.