08 de julho de 2026
Geral

Missionário: vida dedicada ao próximo

Luiz Galano e Ieda Rodrigues
| Tempo de leitura: 5 min

Em meio à competitividade e busca incessante por sucesso pessoal, características do mundo moderno, a maioria das pessoas se esquece do próximo, dos que precisam de ajuda, dos que têm menos oportunidades. Mas ao invés de apenas contribuir esporadicamente, existe quem dedica a vida a pessoas que nunca viu antes, abrindo mão de carreira profissional, convivência com familiares e amigos para aventurar-se em terras estranhas, com culturas e, muitas vezes, línguas diferentes. E isso, por vocação. São os missionários.

Esse é o caso da irmã Maria Adelaide de Jesus, 57 anos, que descobriu ainda na infância sua vocação e precisou lutar até mesmo contra a família para realizar seu sonho. Nascida em Portugal, ela vive há oito anos no Brasil – sete em Bauru. Segundo ela, a vocação foi despertada cedo, com um sonho que freqüentemente lhe ocupava a mente durante as noites em Coimbra.

“Eu estava sempre numa terra distante de casa, fazendo coisas que me exigiam muito e uma pessoa me dizia que esse seria meu destino”, conta a religiosa, que teve a “visão”, pela primeira vez, quando tinha 8 anos. Católica, Adelaide conta que, aos 18 anos, terminou um relacionamento amoroso para se dedicar à vida religiosa, mas sofreu resistência da família por ser filha única. “Meus pais queriam que eu tivesse filhos, esse era o sonho deles. Mas eu não tive como fugir da minha vocação e tive que sair de casa para me dedicar à vida missionária”, conta.

Durante muito tempo, ela fez trabalhos em Portugal, na Espanha e na França, onde lecionava para crianças da rede pública de ensino. Em 1999, recebeu o convite da congregação Irmãs do Sagrado Coração para vir ao Brasil. “Quem sabe essa não era a terra que estava no meu sonho”, brinca.

Logo de cara, Adelaide teve uma mudança brusca no meio de vida, pois veio direto para a cidade rural de Queimadas (PB), onde deu aulas de língua espanhola e religião às crianças da comunidade. “A região é muito pobre. As pessoas vivem basicamente do cultivo da terra, muitos passam fome e não sabem bem o português”, conta.

Ela permaneceu na cidade por quase um ano. A passagem mais marcante ocorreu quando a irmã decidiu descobrir o motivo pelo qual um de seus alunos estava faltando muito às aulas. “Aquela realidade foi um baque. Na casa onde a família morava não tinha nada. Para se ter noção, existia apenas pedaços de papelão, nos quais eles dormiam”, conta a missionária, que não se arrepende de ter trocado a Europa pelo Brasil.

“A vocação nos leva onde somos precisos. Não importa a dificuldade, a gente supera”, completa. Há sete anos em Bauru, ela agora leciona no Seminário Rogacionista. “Me transformando em missionária, descobri a verdadeira felicidade”, finaliza.

Família

O bauruense Jáder Souza Quintela, 34 anos, que há uma semana está no sertão da Bahia coordenando um grupo de 24 missionários em cinco cidades, é outro que mudou o curso de sua vida. “Eu era promotor de vendas quando decidi me dedicar à vida missionária. Larguei o emprego, deixei o carro com a família e em 1999 fui para África, onde trabalhei na alfabetização de crianças num lugar onde 90% são analfabetas”, relata.

Para desenvolver sua função precisou aprender francês, idioma falado pela comunidade onde atuava, e aulas de antropologia. Atualmente, ele está no Brasil, mas da Bahia mesmo deve retornar para Níger, na África, retomar seu trabalho. Mas agora, ele não vai sozinho. Casou-se com Eliane, que também é missionária e tem uma filha de 2 anos. “Somos uma família missionária”, diz ele, que tem despesas custeadas pela igreja.

Na Bahia, onde coordena o grupo de missionários da Igreja Batista Bereana de Bauru e da Igreja Batista de Paraguaçu Paulista, Jáder desenvolve trabalho de evangelização, dá palestras de orientação sobre higiene, atua em escolinha de futebol e até ajuda a construir um prédio para consultório odontológico. Sobre se vale a pena mudar o rumo da vida, ir para terras distantes, com culturas diferentes, ele é enfático. “Vale muito a pena. Além de ser um aprendizado e tanto, tenho uma vida realizada”, afirma.

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Jovens

Apesar dos atrativos da juventude moderna, de festas, reuniões de amigos e baladas, muitos preferem desde cedo dedicar-se à vida missionária. Com apenas 21 anos, o bauruense Leandro da Silva Machado só está na casa da família porque é o período de férias do seminário, localizado em Belo Horizonte, onde ele faz curso de dois anos. Integrante da Igreja Cristã Renovada, ele quer mesmo é ser missionário.

“Já fui a algumas missões de quatro ou cinco dias aqui no Brasil. E quando terminar o seminário, vou para onde Deus mandar: África, Europa, Estados Unidos...”, diz ele, que já fez trabalho de evangelização, visitando famílias de casa em casa e atuou em favelas. Quando Leandro decidiu ir para o seminário, estava na faculdade. “Antes, fiz curso técnico em eletrônica e depois entrei na faculdade e acabei trancando. Mas ainda quero terminar para aproveitar na vida missionária.

Ana Raquel de Toledo Ferraz da Silveira, 23 anos, também bauruense, é outra que está iniciando a vida de missionária. Também integrante da Igreja Cristã Renovada e aluna do seminário de Belo Horizonte, ela relata que está disposta a trabalhar em qualquer lugar, mesmo em países em guerra. “Pode ser no Brasil, no Exterior... Onde for a vontade de Deus. Ele vai me abençoar”, frisa ela, que já tem uma experiência. “Fiquei seis meses nos Estados Unidos, na casa de pastores. Lá, tive uma experiência, um aprendizado de evangelização”, completa.