Brasília - Preocupado com o acirramento dos ânimos, o senador Romeu Tuma (DEM-SP) disse ontem que nem dez pais-de-santo seriam capazes de fazer o “descarrego” do Senado. A Casa está imersa em uma crise desde o fim de maio, quando seu presidente, Renan Calheiros (PMDB-AL), se tornou suspeito de ter despesas pagas por lobista de uma empreiteira.
Desde então Renan enfrenta um processo no Conselho de Ética por quebra de decoro. “Se trouxermos dez chefes de terreiro, sendo três da Bahia, ainda assim não se faz o descarrego desta Casa”, disse Tuma, na tribuna do Senado. Pela terceira vez o plenário foi dominado ontem por bate-bocas motivados pelo caso Renan.
Em mais uma manobra protelatória, o presidente do Senado adiou em pelo menos cinco dias o processo contra ele no conselho, ignorando um acordo feito na véspera. Em protesto, a oposição se retirou do plenário e ameaçou não votar mais nada enquanto Renan estiver na presidência da Casa, por avaliar que ele está interferindo nas investigações.
Membro da tropa de choque de Renan, o senador Wellington Salgado (PMDB-MG) sugeriu hoje que ele tire uma licença médica para desanuviar o ambiente. “O presidente Renan virou o demônio e nem DEM ele é, é do PMDB”, disse ele, fazendo um trocadilho com o novo nome do ex-PFL. Aliados do presidente do Senado estão preocupados com sua posição de confronto adotada nos últimos dias e afirmam que isso só piora a sua situação na Casa. Segundo esses senadores, Renan não estaria mais ouvindo ninguém.
O senador Cristovam Buarque (PDT-DF) disse que a insistência de Renan em permanecer no cargo e suas manobras para impedir as investigações estão atrapalhando o funcionamento da Casa. “O Brasil não tem Senado hoje”, afirmou ele. Renan jogou para terça-feira - véspera do recesso parlamentar - a reunião da Mesa Diretora que decidirá se encaminha à Polícia Federal pedido para retomar perícia em documentos apresentados por sua defesa.
A reunião estava prevista para ontem. “Isso foi a gota d’água. Minha preocupação é com o Senado, cuja desorganização chegou ao ponto máximo. Está todo mundo muito assustado”, disse o senador Renato Casagrande (PSB-ES), que é um dos relatores do processo contra Renan.
A perícia da Polícia Federal é a principal linha de investigação do conselho. O objetivo é verificar se as operações de venda de gado declaradas por Renan realmente ocorreram ou foram simuladas para aumentar seu patrimônio. Ele é acusado de ter despesas pessoais pagas por um lobista da empreiteira Mendes Júnior.
Gim Argello
O corregedor-geral do Senado, Romeu Tuma (DEM-SP), reiterou ontem que pretende investigar o suplente do ex-senador Joaquim Roriz (PMDB-DF), Gim Argello (PTB-DF). Segundo ele, tão logo Argello assuma a cadeira no Senado, serão iniciadas as investigações sobre as denúncias. “Ele (Argello) assume, dão posse e acabou. Ele (Argello) diz que o pretérito não pode ser investigado. Então, enquanto estiver no pretérito não pode ser investigado, mas quando estiver no presente aqui (no Senado), aí será investigado”, afirmou o corregedor.
A reportagem apurou que Argello pensou em tomar posse hoje, no começo da tarde, mas acabou desistindo. Antes, ele precisa apresentar uma série de documentos na Secretaria-Geral da Mesa do Senado - declaração de bens, comunicado do partido e declaração de contas do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), por exemplo.
Para tomar posse até terça-feira, Argello deve escolher um horário em que esteja sendo realizada sessão no plenário do Senado. Se ele optar por tomar posse durante o recesso parlamentar -de 18 a 31 de julho -, a cerimônia ocorrerá no gabinete do presidente do Senado ou de outro membro da Mesa Diretora.
Assessores de Argello não confirmam quando ele tomará posse. Afirmam apenas que ele está preparado e aguarda o momento adequado. Não explicaram o que seria “momento adequado”.
Segundo a assessoria do suplente, ele se dispõe a enfrentar investigações no Senado e estaria pronto para prestar esclarecimentos. Segundo Tuma, os dados sobre o caso Argello que estão no Ministério Público do Distrito Federal e na 1.ª Vara de Justiça Federal serão remetidos para a Corregedoria Geral do Senado para dar início às investigações na Casa.
Argello é acusado de grilagem de terras no Distrito Federal e desvio de dinheiro do Banco de Brasília (BRB), entre outras denúncias. Por meio de assessoria, o suplente negou todas as acusações.