08 de julho de 2026
Ser

O corpo, a mente e a boca falam

Daiana Dalfito
| Tempo de leitura: 8 min

Existe uma hora em que dá vontade de berrar para quem quer que seja ouvir: “Pára o mundo que eu quero descer!”. Nessa hora, muitas vezes a pessoa se sente em meio a um turbilhão de sentimentos ou o corpo simplesmente não responde mais da maneira convencional. Tristeza, uma leseira que não deixa botar os pés fora da cama, sensação de pânico e suores frios. Todos eles sintomas de “doenças da modernidade”, como a depressão e a síndrome do pânico, entre outras.

Mas será que essa é a hora de procurar um psicoterapeuta? Na verdade, cada um sabe muito bem onde o sapato aperta e como evitar os calos. Essa afirmação, que mais parece filosofia de botequim, serve para esclarecer o que a psicoterapia busca. “Conhece-te a ti mesmo”, como disse Sócrates há tanto tempo, na distante Grécia.

Psicoterapia, que tem como base o autoconhecimento, não é tratamento para maluco, mas uma forma de gente ‘normal’ viver melhor com seus dilemas, curiosidades, problemas e desejos. É por isso que o psicoterapeuta nunca diz a seu “paciente” o que fazer, mas ajuda cada um a compreender um pouco sobre sua essência. São inúmeras vertentes que buscam a compreensão do humano.

Algumas dessas práticas nem mesmo são cientificamente reconhecidas. O fato é que, como disse o psiquiatra e psicoterapeuta José Ângelo Gaiarsa, 86 anos, a empatia entre o paciente e o terapeuta é fundamental, sem ela não há resultado. Para você saber mais sobre o assunto, o JC entrevistou a doutora em psicologia clínica institucional Regina Paganini Furigo, psicoterapeuta há mais de 20 anos, que desvenda alguns mitos desse universo de conversas, divãs e buscas pelo entendimento da mente humana. A seguir, os principais trechos da entrevista.

Jornal da Cidade – O que são as terapias?

Regina Furigo – As psicoterapias são parte da psicoterapia clínica, uns dos instrumentos utilizados para cuidar das questões emocionais e psíquicas do ser humano, do indivíduo enquanto pessoa. A psicologia se dividiu em várias escolas na busca de entender melhor o próprio ser humano. Algumas estudam mais o inconsciente, outras mais o comportamento, outras ainda mais a existência humana e há ainda as que se baseiam em aspectos transpessoais. Dizemos, então, que cada escola dentro da psicologia é fundada em um referencial teórico, em um método para sustentar a prática da psicoterapia como um todo.

JC - Professora, quais são as vertentes da psicologia? É possível explicar um pouco de cada uma?

Regina – As mais antigas de todas as linhas são as psicologias que estudam o inconsciente. Neste rol podemos citar (Carl Gustav) Jung, (Sigmund) Freud e (Alfred) Adler. Essas escolas acreditam que as dificuldades, os problemas e as inquietações do ser humano, assim como a criatividade e o potencial, se encontram em um nível inconsciente. E qualquer um desses aspectos deve ser trazido à consciência para que a pessoa se apodere do conhecimento sobre si mesma e possa fazer uso da criatividade ou ‘sarar’ de alguma dificuldade psíquica que ela por ventura tenha, possa curar sua neurose e assim por diante. Outra grande vertente seria a das escolas behavioristas ou comportamentais, essas vertentes se atêm aos aspectos manifestos na ação do ser humano, ou seja, seus comportamentos. A diferença principal é que o comportamento é visível e, ao contrário do inconsciente, pouco subjetivo ou de foro íntimo e introspectivo. A terceira grande escola seria o existencialismo, que procura entender o significado e o sentido da existência humana. Os seguidores dessa linha apregoam que a pessoa no decorrer de sua vida vai atribuindo significados a sua existência e são esses significados que acabam construindo o que a pessoa é, sua personalidade. Estas são as três escolas mais antigas, as que geraram maior produção científica dentro da psicologia. Hoje existem outras vertentes, mas não existe uma quantidade de pesquisa pronta e algumas práticas que não são reconhecidas pelos Conselhos de Psicologia.

JC – Quais dessas terapias não são reconhecidas?

Regina – Por exemplo, os Florais de Bach não são reconhecidos pelo Conselho Regional de Psicologia (CRP) como prática psicoterápica. O psicólogo não pode receitar florais, aliás, o psicólogo não pode receitar qualquer coisa, nem mesmo um chá. Só o médico é apto a receitar qualquer substância.

JC – Psiquiatria pode ser considerada como uma psicoterapia?

Regina – Olha, a psiquiatria enquanto ramo da medicina não habilita o profissional a fazer psicoterapia, mas o que acontece é que muitos psiquiatras, além de serem médicos com especialização em psiquiatria, são também formados em psicoterapias junguiana, psicanalítica e outras. A psiquiatria em si é uma especialidade médica e vai se ater aos aspectos estruturais, orgânicos, bioquímicos do corpo humano.

JC - Qual é a hora, o momento certo para uma pessoa procurar um psicoterapeuta?

Regina - Nós, psicólogos, dizemos que não existe um momento certo, porque a terapia serve também para que o indivíduo se autoconheça. Esse autoconhecimento pode vir a qualquer hora, mas as pessoas geralmente vão em busca de uma ajuda quando sentem que algo não está bem. Esse “algo fora do prumo” tanto pode ser palpável, visível, como sintomas de pânico, a exemplo de quando a pessoa sua frio, tem medo de ficar sozinha ou medo de multidões, de sair às ruas ou quando existe uma depressão, quanto pode ser a presença de sentimentos difusos. Isto é, de repente o indivíduo percebe que algo dentro dele não vai bem, algo não se encaixa. A pessoa pode não se perceber com sintomas claros, mas sente que alguma coisa não vai bem em termos introspectivos e sobre o qual ela deveria se debruçar e procurar entender. A psicologia procura levar a pessoa a ter uma vida melhor, a viver em maior consonância consigo mesma.

JC - Polemizando: se todo mundo fizesse análise o mundo seria melhor?

Regina – Creio que sim, só não sei se dessa maneira, uma panacéia. Não sei se poderíamos classificar a psicoterapia como curadora de todos os males do mundo, mas é indiscutível que as pessoas que se autoconhecem e se buscam são melhores. Esse é o resultado da psicoterapia, a pessoa numa maior integração com ela mesma e com o mundo. À medida que você se reconhece passa a ver com maior benevolência, respeito, generosidade e carinho o outro. Essa situação vai um pouco na contramão do que estamos vivendo hoje, em que a maior parte das pessoas vê o próximo como um empecilho ao seu caminho, se lançam loucamente na competição. A psicoterapia vê e busca a convivência dentro de uma maior harmonia.

JC – Dos três psicólogos e teóricos que a senhora citou quais são as principais diferenças entre eles?

Regina - Resumindo o Adler achava que o que move o ser humano é a busca inconsciente pelo poder. O Freud considerava que o que move as pessoas é a sexualidade. E o Jung considerava que a energia psíquica, aquilo que move o ser humano, é neutra. Tanto ela pode ser movida pela sexualidade, pela busca pelo poder, pela religiosidade ou na busca pelas artes. O Jung via o que leva o ser humano a se mover como algo próximo dos estudos da física. Em poucas palavras: Adler é igual a “poder”, Freud é igual à “sexualidade” e Jung é igual à “neutralidade” da força psíquica.

JC – Dá para determinar qual o melhor método para cada pessoa ou se é melhor procurar um psicoterapeuta ligado à psiquiatria?

Regina – Eu diria que não, embora no âmbito da psicologia perpassem várias lendas de que determinada escola é melhor para determinado caso do que outra. O fato é que todas as escolas têm suas percentagens de êxitos e fracassos. A escolha depende mais da personalidade de cada um, se é dinâmica ou mais introspectiva... mas, com certeza, se os problemas são de cunho corporais, bioquímicos – como no caso de transtornos mentais -, não dá para dispensar um tratamento complementar da psiquiatria. A psicologia vai tratar dos aspectos emocionais.

JC – E também independente a forma como as pessoas escolhem se a terapia é individual, de casal ou familiar?

Regina – Sim, depende do que a pessoa passa. Quando você sente que o problema está em você mesmo, a terapia individual é a mais procurada, mas nem sempre o problema está no indivíduo. Às vezes, a questão passa pela família ou pelo funcionamento do casal, do grupo da empresa, que acabam adoecendo o indivíduo.

JC – Não dá para determinar o tempo de duração dos tratamentos?

Regina – Geralmente não, hoje já podemos dizer que, na prática psicoterápica, os tratamentos de longa duração e até os pronto-atendimentos emocionais o paciente pode fazer em uma, duas e três sessões. Mas vai da proposta, porque psicoterapia é investimento de tempo, vontade e um pouco de dinheiro. Depende da prioridade que cada um dá a sua saúde psíquica, já que quando sentimos dores físicas corremos, mas a dor psíquica é “empurrada com a barriga”. Uma sintomatologia que poderia parar na infância ou adolescência é arrastada e gera males futuros. Assim, a psicoterapia de longa duração trabalha vários aspectos do indivíduos em interação com outras pessoas e períodos da vida, seriam várias “frentes de trabalho”. A psicologia breve elege um foco, por exemplo, você vivenciou um acidente e precisa trabalhar esse trauma. Por fim, o pronto-atendimento emocional é para períodos de crise, de rompimento, quando não há horizontes.

JC – Ainda existe o divã?

Regina – Existe, porque essa questão vem da psicanálise clássica e está embasada na ciência de Descartes, que pregava a neutralidade do observador. Essa posição do psicanalista clássico vem do Freud e a “quebra” dessa neutralidade veio da física quântica. De acordo com esse ramo científico, não existe neutralidade, pois o observador tem um juízo de valor sobre aquilo, não se separa observador de observado. Algumas escolas usam divã, outras optam por poltronas frente a frente, outras de terapia corporal usam poltronas e sofás que permitem o relaxamento.