09 de julho de 2026
Nacional

Guerra civil nas HQs

Por Fausto Salvadori Filho | Folhapress
| Tempo de leitura: 4 min

Super-herói que honra suas cuecas por cima da calça não fala “oi” quando encontra um colega: vai logo dando porrada. Quebra-paus entre super-heróis são tão tradicionais no gênero quanto os colantes coloridos. Mas “Guerra Civil”, saga da Marvel Comics que acaba de chegar às bancas brasileiras, inovou.

A história usa um embate político para deflagrar a guerra aberta entre todos os super-heróis da editora. O pano de fundo é o atual debate norte-americano (e mundial) entre os defensores da linha dura no combate ao terrorismo e os defensores dos respeito às liberdades individuais. “Você abriria mão de seus direitos civis em nome da segurança pública?”, pergunta o gibi. “Guerra Civil” é uma minissérie em sete números (Panini, 44 páginas, R$ 4,90 cada), mas a história vai além, envolvendo todos os títulos Marvel ao longo dos próximos sete meses.

O estopim do conflito é uma lei aprovada pelo Congresso que obriga todos os super-seres a se registrarem como funcionários do governo. A nova legislação racha ao meio a comunidade de super-heróis. Uma força-tarefa do governo, comandada pelo Homem de Ferro, reúne os heróis favoráveis à lei de registro. Do outro lado, forma-se um núcleo de heróis dispostos a combater a Casa Branca. Surpresa: os rebeldes são liderados pelo Capitão América. Símbolo vivo do patriotismo norte-americano, o Capitão resolve mudar de lado por achar que a nova lei é um atentado contra as liberdades civis na América.

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Atentado de 11 de Setembro de 2001

É fácil reconhecer na guerra civil dos super-heróis reflexos da guerra ideológica que divide os EUA desde o atentado de 11 de setembro de 2001. O estopim para a lei de registro é uma tragédia nas mesmas proporções. Durante a gravação de um reality show, um grupo de super-heróis juvenis provoca sem querer uma explosão que deixa mais de 900 mortos. A tragédia desperta um clamor popular contra os super-heróis que força o governo a aprovar a nova lei.

A política sempre marcou presença nos gibis de super-heróis, desde o tempo em que Capitão América, Batman e Super-Homem combatiam os nazistas durante a Segunda Guerra Mundial. A novidade de “Guerra Civil”? A recusa em trabalhar com bons e maus. Na história, tanto os heróis rebeldes como os defensores da ordem têm sólidas razões por trás de suas opções. São personagens fortes, com motivações reais. Tanto que a “Guerra Civil” dividiu também os leitores: muitos ficaram ao lado dos rebeldes do Capitão América, mas uma boa parte também apoiou o Homem de Ferro.

Os supervilões têm uma participação discreta na trama. Fica claro que os principais inimigos dos heróis são os próprios heróis. E como em qualquer guerra, nenhum dos dois lados - governistas ou rebeldes - vai chegar ao final da história livre de pecados. Lançada nos EUA em 2006, “Guerra Civil” é mais uma molecagem do autor escocês Mark Millar, que adora usar política nos quadrinhos. Logo após os atentados às torres gêmeas, em 2001, quando falar mal do governo tornou-se quase um pecado, a editora DC Comics censurou uma edição inteira da revista “The Authority” em que Millar fazia referências pouco elogiosas ao presidente George W. Bush - o título acabou cancelado no mesmo ano.

A arte tem o traço competente de Steve McNiven e um belo trabalho de colorização feito por Morry Hollowell.

Atenção: o texto a seguir trata de histórias ainda inéditas no Brasil e podem irritar os leitores que gostam de surpresas. “Guerra Civil” foi pensado para ser um divisor de águas na Marvel Comics. Depois da saga, os heróis do universo Marvel dividiram-se em dois grupos. A maioria são os heróis oficiais, subordinados ao governo, e os demais são renegados, como Homem-Aranha e Wolverine, que preferem agir por conta própria e são caçados como fora-da-lei.

Dois personagens em especial foram os mais afetados por “Guerra Civil”. Logo após o conflito, o Capitão América foi morto a tiros, num crime ainda não esclarecido. Claro que a morte de um herói como o Capitão tem tudo para ser um golpe de marketing e ele deve ser ressuscitado em breve, como é praxe nos gibis. Outro que passa por grandes reviravoltas é o Homem-Aranha.

Inicialmente favorável à lei de registro, o aracnídeo chegou a expor publicamente sua identidade como Peter Parker numa coletiva de imprensa, no segundo número da minissérie. Mais tarde, desiludido com o governo, Parker uniu-se aos fora-da-lei e passou a usar uma versão do seu antigo uniforme negro para marcar a mudança - e para aproveitar o embalo do filme “Homem-Aranha 3”. Mas o estrago já estava feito. Com a identidade do herói revelada, a família de Parker tornou-se um alvo ambulante para seus inimigos: a vítima mais recente foi sua querida tia May. Nada mal para um herói campeão nos quesitos perdas e tragédias.