Quem sou eu para falar de um profissional, juiz criminalista da melhor estirpe, que semeou por décadas a justiça e a verdade do mundo do crime na nossa cidade. Vossa excelência entrava na sala de julgamento e o silêncio tomava conta do local enquanto as pessoas se entreolhavam como num filme de mistério: alguma coisa a partir dali mudaria definitivamente. E numa postura valente e firme, voz baixa, mas de olhos fixos nas pessoas, dosava e aplicava a pena.
O homem de estatura mediana, corpo franzino, semblante sisudo, indumentária clássica e solene, chegara e daí por diante somente o inocente seria poupado. Interessante, como os animais de puro sangue, ele farejava o itinerário do crime e encontrava o verdadeiro culpado. Os que erravam tinham pavor de um confronto com o doutor emir. Quando os interessados sabiam que os autos estavam na terceira vara criminal, sofriam já pelo fatal encontro, tal o respeito que este doutor espalhava nos corredores do Fórum e nas ruas de nossa cidade.
Não passava um mês sem estar nas páginas de nossos jornais numa busca inusitada aos criminosos. Parecia coisa de cinema.
Vivemos um episódio interessante no fórum, no mês de junho de 1996, no dia que eu chegara de Istambul, representando o projeto desfavelamento de Bauru.
Eu acabara de entrar em casa por volta das 12h30, quando recebi uma ligação de um colega de trabalho, alertando que um carroceiro da favela do Jardim Flórida, que já foi derrubada com a construção de casas no núcleo Fortunato Rocha Lima, iria ser julgado às 13h30. E que já estava preso inclusive. Que o réu em questão era cabra valente, destemido e encrenqueiro, eu já sabia. Mas como no dia do crime eu estava presente no local, sabia também da inocência dele naquele caso específico.
Não tive nenhuma dúvida, me vesti adequadamente e voei para o fórum, na esperança de ainda ter tempo de salvar aquele homem miserável, pai de quatro crianças de 1 a 5 anos, e a mulher entrando no nono mês de gravidez .
Desci do táxi e saí correndo para o terceiro andar do nosso palácio da justiça, e encontrando a porta fechada, bati e entrei imediatamente... Sem ter sido atendida. Todos assustaram com a minha presença, mas o susto maior era meu, pois não sei de onde veio tanto coragem e destemor.
E ante os olhares atônitos das autoridades e do sorriso de esperança do réu, fui dizendo o que conhecia dos fatos registrados nos autos, antes que o excelentíssimo juiz, doutor Emir Maddi, questionasse minha entrada ali e daquela forma.
Promotor e juiz, ato contínuo, absolveram o réu e a imediata ordem de tirar as algemas aconteceu no momento em que o carroceiro beijava minhas mãos, com a mulher chorando e os filhos abraçando o pai. Eles estavam do lado de fora até a minha chegada.
Cumprida minha missão, o que não foi fácil, pedi desculpas ao promotor de justiça e ao doutor Emir Maddi, com tanta humildade que destoava do gesto praticado.
E, naquele instante, eu concluí como era bom ter no nosso município um julgador buscando apenas e somente a justiça, sem sensacionalismo e ameaças. Era o homem cumpridor de suas reais obrigações. Homem que não ri à toa e nem conta vantagem alguma. Homem que sofreu perda irreparável, mas com resignação e elegância. Com o tempo fui entendendo melhor a postura deste bravo juiz, que aprendeu até a dosar a própria pena nas horas de tristezas e desconforto.
Pai exemplar, não mede esforços em prol da alegria e sucesso familiar, com a maior modéstia e simplicidade.
Se não me falha a memória, o réu e sua família, além de mal-ajambrados, calçavam apenas chinelos de borracha. Taí, franzino na maneira de ser, e gigante na maneira de julgar, tratando os iguais, igualmente. Este é o princípio de isonomia que se espera dos poderes públicos de nosso País.
Catarina Carvalho