10 de julho de 2026
Articulistas

Novo ópio do povo


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Ao assistir, no último final de semana, a final da Copa América de Futebol, não pude deixar de perceber a animação dos torcedores, a glorificação de nossa seleção por parte da imprensa e a imagem de que o povo brasileiro havia cumprido seu papel perante o cenário mundial, conquistando mais esse título. Em paralelo correm os Jogos Panamericanos, ratificando o título de Cidade Maravilhosa que tem o Rio de Janeiro e servindo de âncora para atrair as Olimpíadas para este país. O povo brasileiro se sente orgulhoso de ver essas cenas.

Estivesse Karl Marx vivo, certamente retificaria sua frase, e, ao invés de utilizar a religião, preferiria se referir ao esporte como o ópio do povo. Marx dizia que a religião era a ferramenta utilizada para iludir o povo, que fora reduzido praticamente a condição de escravos. O sofrimento foi colocado como uma etapa que se passa para alcançar uma recompensa maior em outro plano. Dessa maneira, a religião ameniza a dor, e, concomitantemente, obstruía a visão das pessoas para a realidade do capitalismo burguês de sua época.

Hoje temos um contexto similar, onde uma minoria da sociedade exerce uma dominação velada, muitas vezes através de uma imprensa manipulada por ela mesma, e condena a maioria dos cidadãos aos limites impostos por ela, isso se não forem estagnados em sua condição de dependentes do assistencialismo e da caridade alheia. Os representantes eleitos por nós são, todo o tempo, colocados contra a parede, e, oportunamente, conseguem se esvair pelas frestas da negociata e do jogo de interesses predominante nesta casta.

A diferença é que desta vez não se utiliza a religião para apaziguar os desfavorecidos, e sim a imagem do Brasil vitorioso que se tem no futebol. Não querendo condenar o esporte, do qual sou fã incondicional, e nem associa-lo aos desfavores sociais; o que ponho em debate aqui é a imagem que se fabricou partindo dele, como uma máquina de vender sonhos e ilusões, que passam muito mais do que a vitória do torneio: passam a superação de toda uma classe, que, após comemorar o título conquistado, irá acordar no dia seguinte sem emprego, sem escola ou até mesmo sem teto. O sentimento de conquista transcendeu seu campo, e atua nos alicerces da sociedade, que desvia sua atenção das mazelas praticadas no governo, dos problemas do seu Estado, Município, etc.

Apesar de óbvia e já calejada, esta reflexão vem se tornando cada vez mais necessária nos dias de hoje, pois a sociedade vive uma crise de valores institucionais, onde se investe radicalmente em meios irreais de felicidade, onde a dignidade é suprimida para ostentar os valores capitalistas e os relacionamentos interpessoais são estruturados pelo que se tem e não pelo que se é.

Marx desejava que a religião fosse abolida do seu papel de ópio para que a real felicidade fosse alcançada, e cabe a nós restaurar os limites do “ópio do esporte” para que a sociedade caia no mesmo erro da Alegoria da Caverna de Platão, onde o povo não aceita que lhe a verdade de sua condição de ignorância e escravidão, e prefere viver a falsa felicidade à liberdade e consciência do real, que certamente dá e exige mais dedicação e entendimento.

O autor, Marco Antônio Planas Júnio, é colaborador de Opinião - e-mail: marcoplanasjr@yahoo.com.br