O câmbio automático no Brasil sempre foi sinônimo de carro de luxo importado ou então de modelos mais simples para pessoas deficientes ou preguiçosas. É uma grande inverdade. Por modismos ou mesmo inabilidade das montadoras em detectar tendências e formar opinião, o mercado automobilístico nacional sempre foi guiado mais por preconceitos do que por iniciativas ousadas de criar mercados.
Veja os exemplos como os carros duas portas, que eram considerados mais “esportivos”, enquanto que os de quatro portas eram feitos apenas para táxis. Hoje quase ninguém mais quer carro de duas portas, pois são extremamente descômodos para entrar e sair do banco de trás. O povo aprendeu a lição e as montadoras acompanharam.
O mesmo está acontecendo com o câmbio automático. Com o aumento da procura e, conseqüentemente, da produção, o preço tende a cair e hoje a opção automática está mais acessível. Houve tempo em que esta opção representava um acréscimo de mais de 10% do valor do carro e hoje é bem menor, sendo oferecida em quase 20 modelos diferentes por quase todas as montadoras.
Outros argumentos antigos contra o uso dos “hidramáticos”, assim chamados devido ao nome comercial da caixa automática oferecida pela General Motors chamada Hydra-Matic, eram sua manutenção constante e cara, além de sua perda de performance, com menor desempenho e maior consumo em relação à caixa mecânica. As caixas atuais são mais sofisticadas e dispensam menos manutenção do que as antigas, mas seu custo de reparo continua alto se comparado aos das caixas mecânicas.
Quanto ao desempenho, as coisas estão mudando. Caixas automáticas modernas têm um desempenho muito semelhante aos câmbios manuais e, em alguns casos, até melhor. Como não tem embreagem e sim um conversor de torque hidráulico, a caixa automática permite ser otimizada eletronicamente e, desta forma, atingir índices de performance nunca antes experimentados.
A troca de marchas por alavanca, por exemplo, que antigamente gerenciava uma caixa com duas ou três marchas apenas, hoje faz com que câmbios automáticos de 5, 6 ou até 7 marchas sejam gerenciados de várias formas, de acordo com a maneira de dirigir do motorista. Existem opções de troca de marchas para desempenho econômico, cidade, estrada, esportivo, competição, enfim, cada um escolhe o seu jeito.
O conversor de torque é o elemento de ligação entre o motor e a caixa automática, sendo o equivalente da embreagem nas caixas manuais. Antigamente era o verdadeiro vilão do mau desempenho e alto consumo que deu fama aos automáticos. Hoje, com tecnologia de fluidos viscosos, gerenciamento eletrônico e bloqueios do conversor fazem com que haja um enorme ganho em performance, pois eliminaram a chamada “patinagem” ou escorregamento, que davam aquela impressão de carro lento e pesadão. Alguns automáticos mais atuais chegam a bloquear o conversor até em primeira marcha, o que permite uma arrancada melhor até mesmo do que com câmbio mecânico.
Outra variação são os câmbios semi-automáticos, que são basicamente caixas mecânicas com acionamento automático através de sistemas elétricos, hidráulicos, pneumáticos ou uma combinação destes, por botões ou alavancas, mas dispensando o uso do pedal de embreagem. Ainda são caros e exclusivos de alguns modelos importados.
Existe também o sistema continuamente variável, conhecido como CVT, muito atual e eficiente, hoje encontrado nos Honda Fit, por exemplo. É um sistema diferente, pois não usa engrenagens para fazer a redução e, sim, superfícies cônicas com uma correia metálica, no qual a variação de posição relativa dos cones faz com que a correia percorra diferentes perímetros, tendo assim infinitas relações de marcha. Desta forma, sensores indicam qual a relação ideal para aquela situação e faixa de torque do motor e os cones se ajustam automaticamente, dando uma performance ideal para o veículo. É a tecnologia sendo acessível a mais bolsos.
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* Marcos Serra Negra Camerini é engenheiro mecânico formado pela Escola Politécnica da USP, pós-graduado em administração industrial e marketing e engenharia aeronáutica, com passagens como executivo na General Motors (GM) e Opel. Também é consultor de empresas e é diretor geral da Tryor Veículos Especiais Ltda. Seu site é www.marcoscamerini.com.br.