O rosto, precocemente entristecido, parece determinado diante da tarefa que se anuncia: deslocar-se em direção ao céu, desafiar a gravidade e propor leis de outra ordem em que pese a leveza e a suavidade, propriedade que naturalmente o humano não guarda. Os músculos definidos em um corpo pequeno, o olhar atento em um rosto também pequeno, um riso também curto: Jade é nome de pedra preciosa. Sobre elas (a pedra e também a mulher), João Bosco escreveu “Aqui meu irmão, ela é coisa rara de ver:/ É jóia do Xá,/ retina do ar, de olhar verde/Já derrama-te abriu-se Sésamo em mim.”. O verso retorna sob o efeito dos saltos acrobáticos, sob a luz de uma beleza tão iniciante, sob a graça de passos fortes e, ao mesmo tempo, frágeis na sua força. Ao observar os movimentos do agora, é possível pensar no esforço de horas de repetição do mesmo gesto, na tenacidade com que a menina superou as dores físicas, o cansaço, a perda de horas de lazer para ganhar aqueles minutos no pódio. Duas máximas são possíveis aqui: renunciar e aprender a perder antes para alcançar ganhos depois; ou o contrário, o que equivale a dizer que a menina ganhou uma série de atributos e técnicas antes para deslizar na barra, perdendo-se em desequilíbrios. Vale lembrar o choro de menina, desamparado pelo que poderia ter sido, mas não foi.
No entanto, essa croniquinha não se pretende triste, então, vale percorrer, em puro delírio de imaginação, o modo como o corpo se acostumou a saltar de um modo, a ser alongado com amplitude, a resistir aos impactos, a teimar em continuar para chegar até aquele momento, a persistir nos treinos e a superar-se após cada queda. Com a medalha no peito, o rosto assume uma estampa com cores de vitória e recompensa, e o furo está devidamente preenchido. Quedas apagadas pelo instante em que a menina de ouro sobe e acena, sorri mais menina do que no início das provas. Ela é o próprio verso “pedra que lasca seu brilho”, lasca, distribui e espalha a luz de sua graça, de seus passos e saltos e vôos.
Nesse mesmo instante, um avião cai na capital com quase duzentas pessoas a bordo, o que também reclama a significação de passos e vôos, mas este não é assunto de menina, nem de medalha, nem de ouro.
Lucília Maria Sousa Romão