09 de julho de 2026
Articulistas

O óbvio nacional


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Óbvio adj: que salta à vista; manifesto claro. Há exatos vinte anos, iniciei minha vida profissional no jornalismo trabalhando como redatora numa das empresas do Grupo Salles de Comunicação, onde editávamos publicações como o Daily Post, um jornal publicado em inglês para executivos estrangeiros e o Vídeo Home Journal, um guia sobre os lançamentos de vídeos da época. Da janela do sobrado da editora, que se localizava igualmente na posição onde estava construído o prédio de cargas da TAM, a duas quadras acima, apreciávamos todos os dias, os aviões decolando e pousando no Aeroporto de Congonhas e imaginando que, um dia, poderíamos ser as vítimas fatais de um grave acidente aéreo, como exatamente ocorreu. Enxergávamos – ou seja, pressentíamos, mesmo com pouca experiência de vida e profissional – que aquele aeroporto já havia perdido sua capacidade de instalação. Ouvíamos, também, o clamor da imprensa apontando para os riscos do crescimento do tráfico aéreo de um aeroporto que, já naquelas condições, apontava a difícil convivência tanto para a população que se avizinhava quanto para as pessoas que dele necessitavam.

E assim se passaram os anos, sem que devidas providências fossem tomadas. Pelo contrário, o tráfico aéreo aumentou com jatos e vôos particulares em grande intensidade, o aeroporto continuou a ser reconhecido como o mais movimentado do país, a administração da Infraero pouco se modernizou e os acidentes começaram a ocorrer. Numa breve retomada sobre o estilo brasileiro de administrar, recorro a estudos sobre cultura organizacional brasileira e leio o trecho em que pesquisadores da Fundação Dom Cabral, de Minas Gerais, levantaram a percepção dos que concordam com os traços fundamentais de 2500 dirigentes e executivos de empresas de grande e médio porte do Sudeste e Sul do país e constaram que, numa escala percentual de 88 a 65, os principais traços culturais presentes na empresa brasileira são: concentração de poder (88), flexibilidade (81), paternalismo (77), dependência (76), lealdade às pessoas (71), personalismo (69), impunidade (69), evitar conflito (68), postura de expectador (67) e formalismo (65).

A conclusão dos pesquisadores é que o caráter brasileiro é carregado de traços complexos e muitas vezes paradoxais. “Nem transgressor nem legalista, simplesmente transcendente. Os dois convivem, sobrepondo-se, indo e vindo com liberdade que transcende os limites, criando uma convivência natural e combinando seus elementos areia e água, mas continuando praia e mar”, haja vista o conselho dado pela ministra do Turismo, recentemente. De que somos uma sociedade alegre e harmônica, mas pobre; criativa, mas com baixo nível de crítica e que a forma de operar esses aparentes paradoxos é que faz típica a nossa cultura, deixando os observadores externos admirados com nosso jeito de ser.

Atualmente, as palavras de ordem no meio empresarial mundial são qualidade total, governança corporativa e sustentabilidade; todas envolvidas com o bem-estar da empresa – sua saúde financeira – atrelada ao bom relacionamento com seus públicos em questão. Mas de que nos serve avanços significativos nas áreas administrativas privadas se nos serviços públicos, nós, cidadãos brasileiros, pouco nos servimos?

A autora, Adriana Nigro Cardia, é professora de Jornalismo e Comunicação Organizacional/Empresarial formada pela USP e Consultora Empresarial - e-mail: adriananigro2002@yahoo.com.br