09 de julho de 2026
Nacional

Airbus apresentou defeito 4 dias antes

Folhapress
| Tempo de leitura: 4 min

Brasília - A TAM já sabia que o Airbus-A320 que se acidentou na terça-feira em Congonhas, provocando a morte de pelo menos 196 pessoas, apresentava problemas mecânicos. No dia 13, o mesmo avião, prefixo PT-MPK apresentou um defeito no reversor do lado direito, que foi lacrado pela empresa. Desde então, apenas o reversor do lado esquerdo estava funcionando. O reversor é um equipamento auxiliar ao sistema de freios do avião. Ele reverte o ar despejado pela turbina. No acidente do Fokker-100 da TAM em 1996, que matou 99 pessoas, as investigações também apontaram o reversor como causa.

O mesmo avião, segundo o “Jornal Nacional”, da TV Globo, enfrentou dificuldades para pousar em Congonhas na segunda-feira, véspera do acidente. O avião, que vinha do aeroporto de Confins (Belo Horizonte), só conseguiu parar quase no fim da pista além da área indicada. A TAM, porém, negou essa informação.

Especialistas ouvidos pela reportagem dizem que a falha no reversor, associada a uma pista com problemas de aderências, como a de Congonhas, pode ser fatal. Mas, para eles, apenas a falha mecânica não causaria um acidente desse porte.

Ruy Amparo, vice-presidente técnico da TAM, disse ontem ao “Jornal Nacional” que os manuais da Airbus permitem que a empresa liberasse a operação da aeronave por dez dias mesmo que os dois reversores estivessem inoperantes. Em seguida, afirmou que “não há alteração de performance” da aeronave sem esse sistema, “exceto em pistas muito contaminadas”.

Amparo afirmou que as pistas contaminadas seriam “embaixo de chuva muito forte”, mas que esse “não era caso declarado” em Congonhas no dia do acidente. Segundo ele, essa aeronave foi investigada por três meses antes do acidente e não foi constatada “nenhuma pane significativa”, que poderia “alterar os padrões de vôo significativamente”.

Também em nota divulgada na noite de ontem, a TAM admitiu que o reversor direito do Airbus-A320, que realizou o vôo JJ 3051, foi desativado. Mas diz que isso foi feito em condições previstas pelos manuais de manutenção da fabricante Airbus e aprovado pela Agência Nacional de Aviação Civil (ANAC). “O procedimento não configura qualquer obstáculo ao pouso da aeronave”, disse a nota da TAM. No mesmo texto, a empresa disse que não teve “registro de qualquer problema mecânico neste avião no dia 16 de julho”.

Os relatos recebidos pelo Comando da Aeronáutica e pela Anac reforçam a possibilidade de que a principal causa do acidente com o Airbus-A320 da TAM tenha sido causada por falha mecânica da aeronave. O problema pode ter sido com o sistema de reversão da turbina, que ajuda a frear a aeronave.

A Aeronáutica confirmou que o filme do pouso do avião em Congonhas registra um “clarão” na turbina esquerda do jato e acrescentou dados à informação de que uma turbina estaria impulsionando o avião para a frente (como em procedimento de decolagem) e outra para trás (de pouso) e daí o “giro” à esquerda.

Segundo essa hipótese, o piloto pousou normalmente, mas uma das turbinas não resistiu à grande elevação de potência exigida para frear a aeronave. Com isso, teria havido uma “explosão do compressor”, gerando o clarão ou, como definiu anteontem o presidente da Infraero, brigadeiro José Carlos Pereira, uma “fumaça forte” no lado esquerdo.

Especialistas em aviação do governo dizem que, se o reverso e o freio estivessem funcionando normalmente, o Airbus não teria continuado em alta velocidade depois de tocar o solo. Com o defeito, os pilotos teriam tido pouca margem de manobra.

O sistema “spearing” pode manter o avião em linha reta na pista, mesmo com problemas na turbina, mas não se ele sai do chão. Neste caso, o “spearing” deixa de atuar sobre o avião, é como se ele fugisse ao controle do piloto. As pessoas ouvidas pela reportagem fazem sempre a ressalva de que essas são hipóteses que dependem ainda de confirmação pelas caixas-pretas, uma com as vozes na cabine de comando e outra com os dados do vôo. Mas todas dizem que os elementos colhidos até agora confluem para falha mecânica.

Especialistas de fora do governo ouvidos consideram possível a ocorrência de falha mecânica na tragédia, e ressaltam que um acidente aéreo costuma ser resultado de uma série de fatores. Para Jorge Medeiros, professor da Escola Politécnica da USP, a tese de falha no reverso é plausível, assim como é possível que uma das rodas do avião tenha parado e a outra não.