O diretor estava refestelado numa confortável poltrona, tal qual um senhor feudal, na sala de onde comandava o nosocômio. Com um ar imponente lia documentos através de um óculos de leitura inclinados para baixo. O astro-rei brilhava no céu cor de anil. Raios fúlgidos invadiam a sala através dos vidros das janelas. Nem parecia que chovera a noite toda.
A sala era enorme, com pé-direito muito alto, fazendo lembrar um palácio medieval. Do outro lado da mesa surge a figura atarracada de irmã Letícia. Por andar vagarosamente, ora inclinando-se para a direita, ora inclinando-se para a esquerda, recebera o apelido de “irmã pingüim”. Apelido jamais proferido na presença dela.
Incomodada por uma artrose reumática, já septuagenária, ela avança em passos de tartaruga, na direção da mesa do diretor. Ele, olhando por cima dos óculos, percebe que a freira franzia o cenho, contrariada. Parece estar muito aborrecida. Com um sorriso terno ele tenta desanuviar a carranca da decana da irmandade.
Ela foi curta e grossa. Estava estarrecida com o modo pelo qual fora tratada por Severino, um auxiliar de enfermagem, vivendo as suas trinta e poucas primaveras. Indagada sobre o motivo da ofensa, a freira esquivou-se, dizendo abruptamente: “Pergunte o senhor mesmo ao Severino”. Dito isto, deu meia-volta e marchou lentamente na direção da porta, com seu andar oscilante.
Perplexo, o diretor acionou um botão e pelo alto-falante convocou o Severino para vir em marcha acelerada até seu gabinete. Cinco minutos depois, surge a figura esguia do Severino, aquele que havia praticado alguma insolência, a qual deixara a “irmã pingüim” irritadíssima. Com um ar cabotino o diretor questiona o porquê da indignação da freira.
Severino começa dizendo que na noite anterior encontrara em cima da mesa da cozinha de casa alguns papéis. Um deles era um bilhete de sua companheira, no qual dizia que estava indo embora com o Ricardão. Ela não agüentava mais o ronco do Severino noite adentro, associado ao jejum de sexo, que amargava na cama do casal. Um outro papel era uma intimação judicial para comparecer ao fórum, devido a vários cheques sem fundos assinados por ele.
Naquela noite São Pedro abrira todas as torneiras do céu, fazendo chover torrencialmente no bairro pobre onde ele residia. A água pluvial entrou por uma telha quebrada, inundando o quarto do casal, estragando todos os móveis. O vaso sanitário recebeu de volta todo o esgoto lá do alto da rua. Severino passou a noite catando os dejetos que flutuavam na água fétida.
Severino não dormiu naquela noite. Cedinho partiu rumo ao hospital. No caminho, porém, a mangueira do radiador estourou, sem que ele percebesse. Resultado: o motor fundiu. Quando foi assinar o ponto de entrada, a responsável pelo setor de pessoal lhe roga que vá até sua sala. A notícia indesejável: houve um corte para contenção de despesas e Severino fora premiado com a demissão.
Severino, chateado, vestiu-se todo de branco, para iniciar o aviso-prévio de 30 dias. Quando avançava pelo corredor da ala sul, deparou-se com a “irmã pingüim”. Ela vinha naquele seu famoso andar, com uma bandeja na mão direita. Aí ela disse para Severino que o paciente do quarto 109 havia falecido e perguntou a ele o que deveria fazer com o supositório na bandeja. Concluindo, Severino pergunta ao diretor do hospital: “Adivinhe o senhor o que foi que eu respondi?”
Gilberto Sidney Vieira