O Brasil é a nação com o maior número de pessoas de origem libanesa em todo mundo. São cerca de 8 milhões de patrícios, pelo menos duas vezes a população do próprio Líbano. A imigração, que começou na segunda metade do século 19, espalhou libaneses por todas as regiões do País e no Interior de São Paulo não foi diferente.
Uma das famílias que vieram para o Brasil no início do século 20 foi a do empresário Massaad Kalim Massaad, um dos mais atuantes membros da comunidade libanesa de Bauru. Ele conta que seu pai veio e gostou tanto que anos depois de ter retornado para o Líbano resolveu “virar brasileiro”, voltou, se estabeleceu e chamou a família.
Como a maioria dos sírio-libaneses no Brasil, Massaad, ao mesmo tempo em que se integrou totalmente à cultura local, nunca perdeu o contato com seu país de origem, sua língua e suas tradições. Na entrevista a seguir ele fala sobre imigração, afinidade dos libaneses com o Brasil e mostra um ponto de vista otimista em relação ao Oriente Médio.
Jornal da Cidade - Como sua família veio para o Brasil?
Massaad Kalim Massaad - Meu pai morava nos Estados Unidos com meus avós e veio para o Brasil em 1925 porque eu já tinha um tio que morava em Piratininga que ficou muito doente. Meus avós e ele ficaram quatro anos e depois foram embora. Daí meu pai voltou em 1951 e, depois de uns sete ou oito anos, chamou todo mundo e reuniu de novo a família. Meu pai não agüentou ficar longe do Brasil e voltou. Ele era apaixonado pelo Brasil, tinha espírito brasileiro, gostava de futebol, torcia para o Santos... Ele sempre me dizia que o Brasil seria o celeiro do mundo. Lá no Líbano só ficou uma irmã, que já faleceu. Mas tem meu cunhado, os sobrinhos, eles sempre vêm cá ou nós vamos para lá. Fomos em 1993 e no ano passado.
JC - Quando o senhor chegou a Bauru?
Massaad - Em 1960, com a minha mãe e meus irmãos. Quando vim já tinha me formado lá em letras, mas quando cheguei aqui fiz vestibular e também estudei letras com inglês para ter um diploma no Brasil e também para melhorar o meu português. O nível do estudo lá no Líbano já era bom porque podíamos optar entre estudar árabe e francês ou árabe e inglês, que foi o que eu fiz, mas quando chegamos aqui ficava pensando, “e se as coisas não derem certo?” Por isso fui estudar. Na época, começamos com uma fabriqueta, depois comércio.
JC - O senhor sempre trabalhou no comércio?
Massaad - No Brasil sempre, na indústria, depois no comércio, mas fui professor antes de sair do Líbano. Lecionei inglês dois anos perto da fronteira com Israel. O ensino lá é muito diferente, a maneira como eles tratam o professor. É um respeito muito grande, bem diferente do que acontece aqui.
JC - O senhor disse que o seu pai gostava de futebol. Como ele virou santista?
Massaad - Meu pai gostava muito de futebol e era santista porque era muito amigo de um ex-presidente do Santos, Athié Jorge Coury (comandou o clube de 1945 a 1971). Ele fez o meu pai ser santista. O meu pai via o Pelé jogando e um dia chamou o Athié para vê-lo no BAC. Em um sábado ele veio, viu o Pelé jogando e disse: “Esse menino vai longe, vou levá-lo para o Santos” e daí começaram as conversas com os pais do Pelé para ele poder ir para o Santos.
JC - A comunidade libanesa em Bauru é grande?
Massaad - É grande, apesar de existirem muitas famílias que nós só conhecemos de longe. Mas nossa comunidade se entrosou muito com as outras. Isso é bom, mas às vezes faz perder um pouco a tradição. Mas Bauru tem muitas famílias conhecidas de origem libanesa. Na região também, Pederneiras, Piratininga, Duartina, Pirajuí, Bariri, todas têm muitos libaneses.
JC - O Clube Monte Líbano de Bauru, que o senhor preside, não ajuda a manter a tradição?
Massaad - Ajuda. Nós ainda não temos uma sede, mas sempre nos reunimos. Em novembro, no dia 22, quando comemoramos a independência do Líbano, fazemos uma grande festa, no ano passado havia umas 550 pessoas. Pela Câmara Municipal, novembro é o mês da comunidade libanesa e árabe de Bauru.
JC - Existe uma missa freqüentada por muitos membros da comunidade...
Massaad - É a missa maronita do padre Rubens Miraglia Zani, na capela do Hospital de Base. O padre Rubens se tornou uma espécie de padre da comunidade libanesa. Aqui em Bauru a maioria dos libaneses são cristãos ortodoxos, mas há algumas famílias maronitas. A missa maronita tem uma parte oriental muito bonita que é falada em aramaico, a língua de Jesus. É uma missa linda, todo domingo às 18h30. Ela é tão bonita que acaba indo mais brasileiro do que patrício.
JC - O que atraiu tantos libaneses para o Brasil?
Massaad - O Líbano é muito pequeno. Para se ter uma idéia, hoje existem 12 milhões de libaneses fora do Líbano, enquanto lá moram entre 3,5 milhões e 4 milhões de pessoas. Só no Brasil moram cerca de 8 milhões. Em São Paulo há a maior colônia libanesa do mundo. O libanês tem o espírito do fenício, que sempre partiu para explorar novas terras, fazer comércio. A primeira família libanesa que veio para Bauru foi a Nasralla, em 1895, depois vieram outras. É curioso porque um puxa o outro. Aqui em Bauru e região, por exemplo, a grande maioria dos libaneses vem da mesma região do sul do Líbano. Em cada região do Brasil aconteceu o mesmo, uns chamavam os outros. Como o libanês é ambicioso, comerciante, ele quer mais. Eles chegaram aqui mascateando, mas hoje existem muitos libaneses industriais, que não se destacaram só no comércio. Curioso é que quando eles entraram no Brasil, no final do século 19, começo do século 20, vieram com passaporte turco porque o Império Otomano dominou todo o Oriente Médio por 500 anos. Chegavam no Brasil o pessoal os chamava de turcos e eles não gostavam.
JC - Os libaneses se adaptaram muito bem ao Brasil...
Massaad - Muito, eles adoraram o Brasil, por isso tantos vieram e ficaram. Por sinal, nossa comida também se adaptou bem aqui, foi bem aceita e tornou a comida brasileira a melhor do mundo pela variedade. Mas a comida libanesa, árabe em geral, é muito popular. Quem está nesse ramo está muito bem. E quem come não são os libaneses. Os patrícios comem em casa, quem vai ao restaurante para comer comida árabe são os brasileiros.
JC - Como os brasileiros são vistos no Líbano?
Massaad - Nós fizemos uma viagem para a Terra Santa em 1986 e quando dizíamos que éramos do Brasil eles ficavam muito felizes, tiravam o chapéu. No Líbano existem cidades onde muita gente fala português. Muitos xiitas vieram para o Brasil, ficaram algum tempo, trabalharam e voltaram, então muitos ainda falam português. E em geral, no Líbano, eles gostam muito do Brasil. O brasileiro é um povo que recebe muito bem. Os libaneses são assim também, eles gostam de receber bem e de serem bem recebidos.
JC - Como está o Líbano atualmente?
Massaad - Acompanho de perto o que acontece no Líbano pelos parentes, quando vou lá e por um canal da TV a cabo também. O Líbano é um país lindo, montanhoso, com um clima maravilhoso. Uma coisa que não existe nos outros países árabes. A maior fonte de renda do Líbano é o turismo. Os que moram no Oriente vão para lá no calor porque é fresco, montanhoso, tem muita fruta, água boa. Em três meses chega a entrar no país 10 bilhões de dólares por causa do turismo. É um lugar moderno, infelizmente a questão política e religiosa é complicada. Para se ter uma idéia, pela lei, o presidente tem que ser maronita, o primeiro-ministro, sunita e o presidente do parlamento, xiita. É a lei.
JC - A crise no Oriente Médio tem solução?
Massaad - Eu acho que sim. O que os países do Oriente Médio precisam entender é que o único caminho é a paz e não o fanatismo. A paz é vantajosa para todos eles. Em Israel, por exemplo, o mercado natural deles seriam os países árabes, mas hoje em dia, o que eles fabricam precisa ir para a Turquia, com quem eles têm boas relações, para voltar com outra embalagem para os países árabes. É um mercado grande, de 170 milhões de pessoas. Economicamente a paz no Oriente Médio seria ótima para eles. Com o petróleo que tem lá eles poderiam dominar tudo. Tem a questão do turismo também. Todo judeu do mundo que visitar o Muro da Lamentação, todo muçulmano do mundo quer conhecer a mesquita azul, todo cristão quer conhecer onde Jesus nasceu e morreu, quer percorrer o caminho por onde Ele andou. Então imagine se fosse possível para todos esses povos visitarem esses lugares em paz.
JC - Essa paz é possível?
Massaad - A paz é possível. Os fanáticos dizem que não, mas ela está chegando. O intelectual palestino Edward Said falava que a única solução são os jovens, gente nova, com mentalidade nova, não o fanatismo dos velhos.
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Perfil
Nome: Massaad Kalim Massaad
Nascimento: Judeidet Marjeyoun, Líbano
Idade: 68 anos
Esposa: Loulou Makhoud Massaad
Filhos: Karina e Karla
Hobby: Leitura
Livro de cabeceira: Atualmente estou lendo uma biografia de Che Guevara, antes desse li “O Livreiro de Cabul”
Filme preferido: “O Carteiro e o Poeta”, de Michael Radford
Estilo musical predileto: MPB, gosto muito de Chico Buarque de Holanda e Maria Bethânia
Time de coração: Santos
Para quem daria nota 10: Moussa Tobias
Para quem daria nota 0:Para os políticos